Pessoas podem ocupar generosos espaços em nosso imaginário. E,
mesmo que esse espaço seja compactado e armazenado lá no fundo da nossa
consciência, é possível que, de um momento para outro, ele nos volte à
memória, como se as personagens, os ambientes, os fatos, esteivessem,
de novo, desfilando em nossa frente. E, para determinados seres, não
importa se a fortuna os contemplou, se seus nomes ocuparam os
noticiários ou as páginas dos jornais ou livros de história. Importa,
mesmo, é que essas personagens nos tenham deixado boas lembranças e que,
quando elas nos voltam, a realidade parece refazer-se e nos trazer a
alegria de uma saudosa e maravilhosa lembrança.
É possível viver dignamente, estar bem, ficar bem, continuar
bem, ter o carinho dos familiares, amigos e vizinhos, quando se tem a
bondade na alma, a simpatia se estampando no semblante, a elegância nos
gestos. É possível, sim, marcar a presença na cidade, mesmo sendo um
quase que anônimo cidadão, ter a admiração das pessoas, construir uma
biografia simples mas recheada de méritos. E o mérito principal ser o de
ter vivido e deixado os outros viverem.
Na minha infância, em muitas de minhas tardes e manhãs, eu
presenciava a passagem de um cidadão de altura mediana, magro, rosto
fino, pele morena (como diria o Dr. Vítor Almeida, cor de cuia!) que,
alçando alternadamente nos braços uma cesta de vime, oferecia no
comércio, nas casas, ou mesmo para os que andavam despretenciosamente
nas ruas, pequenas pencas de bananas, João Libório. Belas e saudosas
lembranças de sua fala calma e macia, de seus gestos delicados, da
singeleza de seus modos.
(Não, não é preciso ser "poderoso" para cativar ou influenciar os
outros. É preciso ter, em si, algo que nos caracterize, que nos dê uma
marca, que nos identifique, que faça com que os outros nos percebam...)
Pois o Seu João Libório, com seu nome inteiro, assim, não
apenas João, nem apenas Libório, vendia-nos bananas, em pencas com oito,
nove, dez, onze bananas, dependendo do tamanho de cada uma delas. Mas
pencas que dificilmente tinham seu peso distanciado de 1 Kg. Ora, tinha
ele tanto conhecimento de seu afazer, que apenas pelo olhar ou por
segurar nas mãos uma das pencas, sabia dizer exatamente o seu peso, nem
prcisava usar de uma balança para verificar isso. Ninguém duvidava dele.
E vendia uma cestinha de bananas pela manhã e outra à tarde.
Apanhava-as em dois pontos de abastecimento: o Depósito de Bananas do
Augusto Hoch ou a Bodega do tio Adelino Casara, em Capinzal. Saía à rua e
já tinha os fregueses certos. E, ainda, havia os colonos que estavam a
visitar a cidade nas bandas do Ouro ou do Capinzal, e que compravam uma,
até duas pencas, para levar para casa. Não era uma fruta rara, mas na
época tudo era difícil, não havia os supermercados, os sacolões, como há
hoje, onde pudesse ser comprada.
E, nesta manhã, ao acordar bem cedo, não sei se para
sugerir-me o escrever de uma crônica, não sei realmente por qual
motivo, mas algo me trouxe à tona a imagem do João Libório. De origem
simples e humilde, um homem honesto, um pai zeloso, um cidadão exemplar,
nunca teve telefone, provavelmente não teve aparelho de tevê em casa,
jamais imaginou que pudesse ter um carro... Mas nunca perdeu sua
credibilide, jamais deixamos de confiar na decência e seriedade com que
nossa personagem levava a vida e nos deixava bons exemplos, dentre eles o
de como tratar bem as pessoas com quem convivemos ou com que nos
relacionamos!
Minha homenagem ao João Libório, de cujos descendentes não tenho nenhuma
notícia, mas que devem estar por aí vivendo honrosamente como ele
viveu.
Euclides Riquetti
04-10-2013