Edificações do Seminário São Camilo, na Vila Pompeia, em São Paulo, na década de 1930. Em meio ao arvoredo do jardim, meu pai costumava meditar, na sua juventude.
Bem, já te falei, leitora, que meu pai, Guerino Richetti,
depois Riquetti, foi seminarista no São Camilo, na Vila Pompeia, em São
Paulo. E, que por dar a marretada no dedão do colega noviço Albino,
precisou fugir, vivendo clandestinamente, durante dois anos, na Segunda
Guerra Mundial, no centro da Capital Paulista.
Se gostas de Literatura, deves conhecer a história
melodramática, com um final inafortunado para os personagens, Eugênio e
Margarida, escrita em 1872 pelo mineiro Bernardo Guimarães. Gostavam-se,
mas foram separados, ele mandado para um Seminário. Formado padre,
volta para sua cidade natal, esperando rezar sua primeira missa, e
reencontra Margarida, sua inesquecível paixão. Entregam-se,
apaixonadamente, numa noite de amor, embora ela esteja com a saúde
debilitada. Ao ser convocado para a celebração de sua primeira missa, a
encomendação de um corpo, que verifica ser de sua amada. Sai correndo,
em direção à porta da igreja, enlouquecido, louco, louco...
Voltando à história de meu pai, ao fugir do noviciado, foi
procurar sua madrinha. Todo o seminarista, em qualquer cidade, tem sua
madrinha, que lhe lava as roupas, manda-lhe um bolo no aniversário, e
que até o leva para almoçar em sua casa alguma vez por ano. Ela o
recebeu, ouviu sua história e, com cumplicidade, acolheu-o e protegeu-o.
Arrumou-lhe empregos, um de padeiro, entregador de pães, com cesta e
bicicleta, e outro de ajudante de açougueiro, entregador de carnes com
uma charrete. Não sei qual foi o primeiro, pois o perdi em 1977, quando
ele tinha 55 anos e eu nem completara meus 25 ainda. Era a hora em que
eu estava começando a aproximar-me mais dele, pois voltara da Faculdade,
formado, com família, morando perto, em Duas Pontes, hoje município de
Zortéa. Voltei em fevereiro, ele se foi em 18 de junho, nos vimos
algumas vezes, ele muito debilidtado e passando a maior parte do tempo
em Florianópolis, internado no Hospital de Caridade. Num momento
favorável de minha vida ele nos deixou...
Contara-me, em minha infância, algumas histórias fascinantes
sobre o avô dele, Pachoal Richetti, que foi criado no orfanato de
Veneza, onde foi parar aos dois anos de idade, em meados do Século XIX,
após ter sua família dizimada em uma guerra. Contara-me sobre as
malandragens no seminário, onde tinha que esconder alguma moeda que
tivesse ganho, pois os padres não queriam que tivesse dinheiro. Uma vez
jogara uma pela janela, no gramado, para que não lha tirassem, e nunca
mais achou...Contara-me sobre a vez que, com sua bicicleta, atingiu uma
senhora em meio às pernas, rasgando-lhe a saia, e teve que abandonar a
bicicleta do patrão, para não ser preso, pois não se alistara para a
Guerra, sendo os seminaristas e padres dispensados do serviço militar,
mas que ele fora denunciado pelos padres, em razão da fuga. Não sendo
mais seminarista, deveria alistar-se, e ele nem documentos tinha. Assim,
viveu e trabalhou, clandestinamente, em São Paulo, por dois anos, após 9
de seminário.
O seminário era localizado distante uma seis quadras do
Palestra Itália, hoje Palmeiras, que era o time para o qual os padres
italianos torciam. E os seminsristas assistiam jogos gratuitamente, pois
até a dentista do seminário (mulher, naquele tempo, já era dentista,
vejam...) e ela tinha dois irmãos, de sobrenome Mazzilli, que jogavam no
Palestra. meu pai viu construírem o Palestra Itália, um jardim suspenso
(pesquisem sobre isso), e o Estádio do Pacaembu, que, segundo ele, se
situou sobre o rio Pacaembu, sei lá se canalizado ou aterrado.
Eram vizinhos de um cidadão muito ilustre, o maior
empreendedor brasileiro de todos os tempos, o Conde Francesco Matarazzo,
dono de um império industrial fabuloso, que até mandara dólares
americanos para que a Itália se sustentasse durante a Primeira Guerra
Mundial. E que faleceu em 1937, quando meu pai tinha 14 anos. Mas a
história do meu pai e seus amigos com o Comendador Matarazzo eu contarei
numa crônica próxima, pois agora, neste momento, não posso, não
conseguiria, porque estou com vontade de chorar...
Euclides Riquetti
02-04-2012