Quando de minha infância, ainda não havia rede de distribuição
e fornecimento de águas em Rio Capinzal. Destarte, as senhoras tinham
que buscar locais onde huvesse água em abundância para fazer o serviço
de lavar roupas. Poucas famílias possuíam máquinas de lavar para esse
serviço. E, as máquinas existentes, a maioria de madeira, umas espécies
de tinas, não deram ditadas de dispositivos que lhe permitissem o
enxágue, a centrifugação ou pré-secagem da roupa, antes de que fosse
estendida no varal. E poucas pessoas conheciam sabão em pó, o famoso
"Rinso".
Lembro que as donas de casa buscavam a beira dos rios para o
serviço. Tinham uns "lavadores" de madeira, uma espécie de "rampa" que
era colocada na margem, escorados em pedras, com uma base para o
ajoelhar-se e um detalhe retangular onde era depositada a pedra de
sabão para que não deslizasse e fosse perder-se nas águas. Muitas
vezes, quando o sabão escapava das mãos das lavadeiras, eram o filhotes
que buscavam recuperá-lo nas águas. Crianças pequenas, de sete ou oito
anos, nadavam bem e tinham domínio das águas. Eu mesmo recuperei muitos
para as senhoras. Em alguns lugares, onde havia pedras, as lavadeiras
gostavam de bater e esfregar as roupas sobre elas, o que ajudava muito
para que ficassem bem limpas.
O Rio do Peixe era muito frequentado, havia alguns lugares
próprios, onde o barranco era menor, áreas preparadas pelas pessoas para
que as senhoras pudessem colocar seus lavadores e ainda para a
ancoragem de botes, que ficavam amarrados em angicos ou mesmo em
sarandis. Quando o rio ficava sujo por causa das chuvas, fazer o que?
Fácil. Sempre tinham um tonel que recebia a água das calhas e tinha água
armazenada, da chuva. E ainda grande parte das casas tinham cisternas,
onde armazenavam grande estoque de água. Quem não as tinha, guardava
água em tonéis.
Mas, pelo menos cinco destinos eram, principalmente, os mais
utilizados para lavarem roupas: O valo da Usina Hidrelétrica da Família
Zortéa; os rios Capinzal e Coxilha Seca, afluentes do Peixe; e as duas
margens deste, tanto na Sede Municipal quanto no Distrito de Ouro, nas
localizações abaixo da barragem de pedras.
No Rio Capinzal, desde a foz junto ao do Peixe, até onde ele
adentrava o perímetro urbano, no Loteamento Santa Terezinha, havia
muitos pontos onde as roupas pudessem ser lavadas. As águas eram limpas,
havia lambaris, jundiás, joanas e carás habitando-as. E, ali, logo
abaixo do Grupo escolar Belisário Pena, havia um grande pomar de caquis,
de propridade da família Soccol, onde a margem facilitava muito o
trabalho das senhoras. Havia diversos pontos utilizados em todo o curso
do rio.
Na margem direita do Peixe, logo após a entrada ao "Valo da
Usina" , havia outro ponto bastante utilizado. Lembro que minha mãe, a
Dona Aurora Stopassola, a Dona Iracema Surdi, minhas Tia Elza Baretta e
Maria Lucietti Richetti, e outras tantas, tinham seus
lavadores,colocados imediatamente acima de uma comporta para brecar o
excesso de água a alimentar a usina, que depois transformou-se numa
fábrica de pasta mecânica, para a produção de papel e papelão.
E, no Rio do Peixe, logo abaixo da barragem, nas duas margens,
dezenas de locais próprios para serem colocados os lavadores, até o
limite Sul da cidade. centenas de senhoras se alinhavam, com seus cestos
de roupas e lavadores, próximo do rio. Depois, já em casa, com baldes
de água bem limpa retirada dos poços, com anil adicionado, enxaguavam as
peças brancas para que tomassem uma cor mais alva. Nessa época também
começaram a utilizar "Q Boa", a única água sanitária então conhecida.
Com o tempo, felizmente, veio o serviço de captação,
tratamento e distribuição de águas pelo Simae, no início da década de
1970, quando eram prefeitos, respectivamente, Apolônio Spadini e Adauto
Colombo, em Capinzal e em Ouro. Mas, infelizmente, as águas de nosso Rio
do Peixe deixaram de ser as mesmas. Houve o cresimento das cidades à
montante e, com isso, a implantação de muitas indústrias, desde
Caçador. E as lavouras da bacia hidrográfica passaram a utilizar
defensivos agrícolas. Também se perdeu muito do respeito que se tinha
pelas águas. E nossos rios ficaram poluídos, sobraram poucos peixes.
Também, com a danificação da barragem, menos água passou a ficar retida
ali. E a paisagem perdeu muito de sua beleza.
Gosto de lembrar e registrar essas atividades, pois refletem,
além da história, as dificuldades que as pessoas tinham para algumas
atividades que hoje são muito facilitadas pelas tecnologias. Bem melhor
acionar o botão do automático da máquina de lavar do que ficar, algumas
tardes por semana, ajoelhadas, com o corpo arcado sobre o lavador...
Euclides Riquetti
13/04/2013