
Não sei o porquê de hoje ter-me voltado à década de 1970, uma
das mais produtivas de minha vida. Mas algo me impeliu a retornar a ela
e, por conseguinte, relembrar de como era a vida dos jovens. Eu queria
estudar, fazer uma carreira, construir uma vida digna, ter confortos que
não tive antes, "ser alguém". E então lembrei-me de pessoas que me
apoiaram, me ajudaram... e também dos que me jogavam na vala da
"ninguenzada".
Quanta coisa contabilizei naquela década: Fiz 18 anos,
terminei o curso de Técnico em Contabilidade, passei no vestibular,
mudei de cidade, de estado, de trabalho, badalei muito, namorei,
terminei meu curso de Letras/Inglês, casei-me, tirei carteira de
motorista, comprei meu primeiro carro, fiz concurso para professor, fiz
minha casa, tive duas filhas, gêmeas. Ah, e escrevi algumas poesias que
acabei jogando no lixo. Como gostaria de reavê-las! Apenas duas salvei,
porque foram publicadas num livro, em União da Vitória e me restaram
"Tu" e "Uma Oração para Você", esta muito significativa, que compus no
verdor de meus 20 anos...
Naquela década, usávamos cabelos compridos, calças
boca-de-sino e mais adiante pantalonas, camisa xadrez ou com estampas
florais, meias vermelhas, perfume Lancaster ou Pretty Peach. E, quem
conseguia obter, calça Lee ou Levi´s importada, indigo-blue. Era bacana
ter jaquetas Lee ou então verde-oliva, a cor do Exército Brasileiro.
Comprávamos distintivos "US Army" ou "Marinner", que aplicávamos nos
ombros das jaquetas, e isso era marca de prestígio perante a galera.
Alguns conseguiam umas camisetas de malha de algodão que tinham a
inscrição: "University of Californy" ou "Columbus University". Isso
significava sucesso garantido.
E as mulheres? Bem, a maioria delas também usava roupas assim,
unissex. E a minissaia dos anos 1960 e as saint tropez acabaram
substiuídas por shorts curtos, aquelas meias "cabaret" e botas de cano
médio ou longo. E, a partir de 72, aquela onda de, no inverno, usar
blusa de tricô e meia da mesma lã e das mesmas cores.
Nos cinemas Guiliano Gemma fazia o Ringo derreter os corações
das mulheres e as múscas italianas e francesas que vinham nos compactos
simples ou duplos e nos long-pays imperavam nas rádios. A onda
"inglês" veio meio junto, com "The Beatles" em seu rock.
Mas a grande onda da década veio por conta de uma ofensiva da
Igreja Católica no sentido de mobilizar as novas lideranças jovens e
reanimar as já maduras para suas lides religiosas. Começaram com o
cursíhos, obra iniciada na Espanha bem antes do que no Brasil. Nunca
participei de um, mas muitos amigos meus fizeram parte de ações
cursilhistas. Jovens que optaram por deixar o seminário passaram a atuar
como professores ou engajando-se nas atividades da Igreja. Inteligentes
e com boa formação, eram bons exemplos a serem seguidos.
Foi nessa época que o corumbaense que foi para São Paulo aos 16
anos, Neimar de Barros, deixou o trabalho de junto à TV do Sílvio
Santos, onde dirigiu os programas "Cidade Contra Cidade" e "Boa Noite
Cinderela" e converteu-se de ateu para Católico Apostólico Romano.
Tornou-se escritor poeta e pensador, e passou a ter forte liderança
dento da Igraja Católica. Visitou mais de 4.000 comunidades religiosas e
vendeu mais de 4 milhões de exemplares de seus mais de 10 livros que
escreveu nas línguas portuguesa e espanhola.
Em 77, quando eu me iniciava efetivamente no
Magistério Catarinense, na Comunidade de Duas Pontes, hoje município de
Zortéa, em Santa Catarina, a moda era ler "Deus Negro", de Neimar de
Barros. Logo depois surgiram outros livros dele e o que mais chamava
atenção era "O Diabo é Cor-de-rosa". Todos liam, recomendavam, iam
passando adiante a idologia, o pensamento do convertido autor. E, em seu
rastro, também vinha o Artur Miranda, que conheci lá na Casa Paroquial
de Capinzal.
Em 1986 Barros concedeu uma entrevista à Revista Veja que fez
grandes estrondos nos meios religiosos brasileiros. Declarou que estava
infiltrado na Igreja a serviço da maçonaria ( o que nunca foi
comprovado, acho que foi invencionismo dele), que estava descobrindo os
podres da mesma e disposto a revelá-los para o mundo. E declinou
diversas "vergonhas" que estariam acontecendo nos meios eclesiásticos. A
repercussão foi das piores.
Eu tinha lido justamente os dois livros que mencionei, entrei
na onda da época, era imaturo, não tinha propriedade sobre minha opinião
ainda. Fiquei muito revoltado com ele e mesmo os comentários que li
sobre ele, oriundos de seus admiradores internautas, não me fizeram
mudar em relação ao péssimo conceito que formei a seu respeito. Acho que
ele foi ou oportunista, ganhando muito dinheiro e se promovendo em cima
da de nossa Fé, ou um baita enganado, que usou de meios pouco
legítimos para atingir seus nebulosos objetivos.
Acho que de bom alguma coisa restou nessa história: muitos
jovens, na época, foram surgindo como lideranças nas cidades, alguns que
se conheceram nesses encontros até constituíram família, tornaram-se
importantes gestores públicos e privados, emprendedores, educadores.
Enfim, essa geração teenager que tornou-se adulta naquela década,
deixou filhos com elevado nível de formação pessoal e intelectual que
estão espalhados pelo Brasil e pelo mundo, fazendo sua parte no
contexto de nossa história.
No ano passado, dia 06 de maio, bastante debilitado em função
do Alzaimer de que estava acometido, Neimar de Barros veio a falecer.
Sua morte passou em branco. Não pela doença, mas por ter sido rejeitado
pelos eus fãs em razão da falta de coerência entre o que pregou e o que
deixou de concreto como exemplo. Caiu no ostracismo e os brasileiros o
esqueceram. Só lembram de seu nome os pré-idosos que viveram em seu
tempo. Os outros, só conhecem o Neymar que joga no Santos, baita craque
de bola!
Euclides Riquetti
27-02-2013