sábado, 9 de fevereiro de 2013

Carnaval em Joaçaba

          Acontece esta noite mais um pomposo espetáculo de carnaval em Joaçaba. Quatro escolas estarão na avenida,  daqui a pouco,  para brindar as cerca  15.000 pessoas que estarão ocupando os camarotes e arquibancadas da Avenida XV de Novembro. Ainda haverá centenas de pessoas acotoveladas nas janelas dos prédios ou confortavelmente abrigadas nas suas sacadas. E, talvez, umas duas mil pessoas que ficam perambulando por debaixo das arquibancadas, que não adquirem ingressos, mas assistem da mesma forma. Alguns chegam lá antes, levam seus banquinhos e cadeiras, seus isopores cheios de latinhas de bebida, salgadinhos, e fazem sua  festa. Ninguém os impede, pois o carnaval recebe recursos públicos. Neste ano foram R$ 600.000,00 da Prefeitura e R$ 1.200.000,00 do Governo do Estado. É certo que as esolas, os foliões e a Liga colocam muito dinheiro na parada. Têm um eficiente método de comercialização de ingressos e camarotes e ainda muitos patrocínios publicitários de empresas que têm suas placas de propaganda fixadas nos lugares onde é possível. Duvido que se faça um carnaval assim com menos do que R$ 4.000.000,00. Mas pode ir para muito mais do que isso, não menos.


 Durante a semana, emissoras de rádio vinham divulgando anúncios que ofereciam vagas para três pessoas para uma sacada bem localizada, somente para a noite de sábado, por R$ 1.500,00, ou R$ 4.200,00 para uma sacada em que caberiam cerca de 25 pessoas, também somente para a noite de sábado. Casas para serem utilizadas durante bo evento por R$ 3.000,00 de aluguel. Provavelmente que, para segunda, esses preços dominuam, uma vez que o sábado é a noite em que as escolas apresentam atores globais, principalmente a Aliança e a Vale Samba. A Unidos do Herval, de Herval D ´Oeste,  e a estreante Acadêmicos  do Grande Vale não têm o poder de fogo das duas escolas maiores, mas contam com coordenadores e artistas com muita experiência. E pessoas muito talentosas para desfilar. Vamos ver quem serão as surpresas deste ano. A Acadêmicos foi fundadas por dissidentes da Vale Samba e das outras escolas. Seu principal nome é o professor, ator e carnavaleco Jorge Zamoner. Seu companheiro João Paulo Dantas perdeu a vida recentemente, em acidente de carro precedido de problemas cardíacos. Eu, pessoalmente, o considero Zamoner o mais experiente na área.

         Os jurados, a exemplo dos anos anteriores, vieram do Rio de Janeiro. As arquibancas  e os camarotes metálicos  se extendem nos dois lados da XV. Observei detalhes da segurança e verifiquei que os encaixes estão com sobreposição de reforço de arame para que não aconteça o caso de qualquer soltura. O Presidente da Liga Independente das Escolas de Samba de Joaçaba e Herval D ´Oeste, Engenheiro Felipe D ´Agostini, está surpreendendo em sua capacidade de articulação e liderança. E o item segurança é sempre a sua principal preocupação.

          A concentração se dá na Avenida Rio Branco e Rua Francisco Lindner. Estive lá durante a tarde, fotografando os carros alegóricos. Naquele  momento havia cessado uma chuva e acabavam de retirar as lonas que cobriam os carros. Mas havia alguns que foram molhados da mesma forma. Equipes de apoio das escolas davam os retoques finais na maquiagem das alegorias. Um colava flores nas bordas de um enfeite. Outro soldava ferros. Outro conferia o sistema de iluminação do carro alegórico. Carrinhos conduziam fardos de bebidas para serem colocadas para gelar.

          Neste momento, quase 20 19 horas, o céu está um tanto escuro. Há visível ameaça de chuva. Tomara que não aconteça isso. Seria uma maldade para com todas aquelas milhares de pessoas que estarão desfilando e os que pagaram ingressos para assistir. E com os que, carinhosamente, confeccionaram fantasias, ensaiaram e estruturaram tudo.

          Acompanhei já mais de uma dezena de eventos desses em Joaçaba e, a cada ano, estão melhores. Assisti ontem ao desfile de São Paulo. Posso garantir a você, leitor (a), que nosso carnaval tem alegorias melhores do que os de lá. E os sambistas daqui são espetaculares. Há uma avassaladora paixão pelo carnaval aqui. As pessoas que não puderem fazer-se presente poderão acomapnhar pela TV Bandeirantes do âmbito estadual. É claro que Joaçaba também será notícia em nível nacional porque em Florianópolis não haverá desfile.  Querelas políticas levaram a isso.

          Vamos torcer para que o nosso seja um sucesso. Amanhã estarei relatando mais sobre isso.

          Bom divertimento  a todos, com serenidade, calma e evitando os excessos de todas as formas.

Euclides Riquetti
09-02-2013

                  

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Barbeiros e topetes

          Não sei por que chamam os barbeiros de barbeiros. Ora, poucos são os que vão às barbearias para cortar a barba. Vão, sim, para cortar o cabelo. Antigamente havia preconceitos contra cabeleireiros, acho que era por isso. E a maioria dos homens, hoje, prefere cortar os cabelos com as cabeleireiras. Muitas mulheres preferem cabeleireiros. Então tudo está empate. Eu pouco me importo, corto o meu pelo menos duas vezes por semana, sagradinho. Às vezes três, é uma questão de hábito...

          Antigamentre, e eu sou bem antigo, eu não gostava de ir ao barbeiro por alguns  motivos: primeiro, porque cortavam os cabelos com aquelas máquinas metálicas, e doía. Pouco usavam as tesouras. Tesoura era mais  para quem tinha cabelão de galã. Nós, crianças, tínhamos que nos contentar com um corte bem raso. E deixavam um topete na frente, este sim moldado pela tesoura. Era um corte militar, como o dos soldados. Os italianos, lá da roça, chamávamos esse topete de sthufet. Para mim, um sthufet é um montinho de cabelos na frente, na testa. E também porque eu tinha medo da navalha que usavam para o acabamento, os aparos finais. Parecia que iriam cortar meu pescoço fora. Eu tinha medo.

          O mais famoso topete de que se ouviu falar foi o do Presidente Itamar Franco. Uma vez o topete dele ficou muito comentado  porque, junto com o topete, esticou os olhos para olhar para uma certa modelo que estava com ele  num camarote de carnaval, acho que no Rio de Janeiro. (Ele não faria isso em Juiz de Fora...) Um fotógrafo,  esperto, flagrou uma pontinha, só uma pontinha bem tiquitinha de uma peça da roupa de baixo da "peça", e foi uma azaração só. Zoaram muito daquela situação, mas a moça teve seus minutos de fama. E não foram apenas quinze, porque, adiante ela tirou umas fotos para uma revista...e ficou famosa até que ele deixou o cargo.

          Lembro com saudades dos meus  barbeiros: O Estefenito, no Leãzinho. Meu pai, na Linha Bonita e na cidade, cortava os cabelos dos amigos por puro amadorismo, não cobrava nada.  Quando cresci fui cliente do Alcides Spielmann e do Surdi, que atendia lá no "redondo", perto da Igreja de Capinzal. Na Barbearia do Spielmann, ele tinha um quadrinho na parede com uma gravura em que aparecia o "Amigo da Onça", personagem assinada pelo Stanislaw Ponte Preta. O Amigo da Onça era um barbeiro e estava com a navalha na mão, cortando a barba de um cliente, que olhava asustado. Pudera, ele olhava para um totó e dizia: "Calma, Totó, vai sobrar um pedaço de orelhinha pra você também"!  Era mais ou menos isso. O Spielmann nos contava belas histórias, entretinha os que estavam na espera da vez.

          Em Capinzal, ali na esquina da XV com a Ernesto Hachmann, havia a Barbearia do Eurides Gomes da Silva. Era um barbeiro muito gentil também. Dava conselho para nós, jovens e sempre tinha uma filosofia nova para incutir. Seu auxiliar era o Maneco. Mais tarde, o Schwantes, que era nosso inquilino, foi trabalhar com eles. Aos fundos havia uma sala de jogos de mesa. O melhor jogador era o Roque Manfredini. Visitei ele aqui em Porto União nesta tarde. Está vizinho de seu irmão Alvadi e do Fernando Martini, meu colega de chapa no Diretório da Fafi. Sua alma está lá em cima. Mas eles agora são vizinhos aqui. A Barbearia do Eurides era  um lugar simples,  mas muito bom para passar o tempo. Os anos passaram e essas pessoas também passaram, foram morar lá em cima. Que pena!

          Quando fui morar em União da Vitória, meus colegas da República Esquadrão da Vida já foram me orientando: Melhor lugar para cortar cabelo, aqui, é no Salão dos Estudantes, perto do Hotel Flórida. Recebi trote atrasado na Faculdade e no outro dia, cedo, fui raspar o cabelo naquele salão. Virei cliente. Foi bom porque meu cabelo deixou de ser liso e ficou encaracolado. Eu me sentia o tal! Até arrumei uma namorada e casei com ela. Passei por lá hoje e conversei com um barbeiro. Está trabalhando do Salão do Estudante desde 1977, justamente o ano que saí da cidade. 

          Quando o Spielmann morreu, seu salãozinho passou a ser atendido pelo Sr. Calgaro, que veio de Curitiba. O Calgaro também era muito calmo e tinha boas histórias para nos contar. Ficamos amigos. Quando ele partiu, jovem, seu filho Neguito o sucedeu. Ele e a sua mãe atendem até hoje.

          Uma das características indispensáveis para um barbeiro ou uma cabelereira é ser um bom papo. Estar atualizado (a) ajuda a manter uma boa conversa. Mas não é só isso, tem ser muito bom em seu serviço. Quem os procura vai porque quer ser sentir mais atraente, mais bonito. Isso vale tanto para ele quanto para ela.

          As mulheres sabem que um lugar para ficar sabendo "o que vai pela cidade" é nos salões de estética. Lá se sabe de tudo. O que elas não sabem é que nos salões para os homens  ou barbearias  os assuntos são os mesmos! Nós também ficamos sabendo muito sobre elas...

Euclides Riquetti
07-02-2013









         

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

A Era do Rádio

          Na minha infância, quando raras famílias podiam dar-se ao luxo de ter um televisor ou uma geladeira em casa, havia um aparelho indispensável: o rádio. Ah, o rádio era a invenção mais cobiçada de todos. A maioria deles eram grandes, uns energizados com  baterias, na área rural; outros a luz, nas áreas urbanas, e os acionados a pilha. ´

          Ter um rádio era o sonho de nossa família. Meu pai conseguiu comprar um quando eu tinha doze anos. Imagine uma casa sem um rádio! Era um aparelho que fora remontado pelo Sr. Ernesto Fontana, em Barra Fria. O caixão, em madeira, media aproximadamente 60 centímetros. Mas o miolo ocupava metade do espaço, no máximo. Porém, pegava de tudo. Era um "caixão de abelhas". Quando alguém tinha um pequeno, era um "caixão de mirinzinho". Quando um rádio não pega bem, dizem que é uma "beiera", que traduzo para vocês como uma "abelheira"!

          Aliás, as pessoas inventavam piadinhas assim: "O seu rádio pega Pato Branco? Pega?  Então reserve um casal pra mim... (Alguns trocavam pato por Arapongas...) Os pedreiros sempre trabalhavam ( até hoje o fazem), com um rádio ligado. Um portátil. Diziam que pedreiro que não tem rádio portáteil "não é pedriro". O receptour a suportar o trabalho pesado sob o sol. Ter um rádio portátil era um luxo. O Breno Montanari era pedreiro e tinha um que levava ao campo nos jogos do Arabutã. Levava para escutar o Gre-nal. Quando saía um gol ele erguia o volume e todos perguntavam: "Gol de quem?"

         Já o saudoso meu vizinho Idalécio Antunes de Souza, pai da Helena, era torcedor o Internacional. Quando dos tempos da Máquina Colorada, qu tinha o Falcão, o Figueroa, o Batista, ele colocava a vitrola na janela da casa e com todo o volume. Até lá do outro lado do Rio do Peixe, em Capinzal, se escutava. E, quando o Inter fazia gol, tinha foguete.

          O importante era ter um rádio em casa. Um que sintonizasse pelo menos as emissoras mais cobiçadas: Bandeirantes, Record  e Tupi, em São Paulo; Globo, Tupi e Nacional, no Rio; Guaíba, Farroupilha e Gaúcha, em Porto Alegre. E, os mais  americanizados e europeizados, dentre os quais eu incluo meu pai, gostavam de ouvir "A Voz da América" e a BBC, de Londres. No âmbito regional, as Rádios Fátima, de Vacaria, Catarinense e Herval D ´ Oeste, de Joaçaba, Cultura, de Campos Novos, e Rural de Concórdia. E havia os que gostavam da Rádio Aparecida, de São Paulo, onde escutavam missas e pregações. Passei minha juventude ouvindo rádio.

          Antes disso, quando era bem pequeno, um rapaz chegava a cavalo na casa de meu padrinho para nanorar uma das filhas dele, após a janta do sábado o programa era "ouvir rádio". E sobrava pra mim. Todos iam dormir e me deixavam cuidando deles para que nada de mal lhes  acontecesse. Pegavam suas cadeiras empalhadas e ligavam, na Farroupilha para escutar "os caipiras". Ela, gentilmente, colocava um pelego ao chão e um travesseirinho para que eu ficasse mais confortável na tarefa de vigiar o casal. Eu vigiava  uns minutos, mas a maciez do pelego me levava ao sono profundo. No outro dia, perguntado, eu dizia que não acontecera nada entre os namorados, que eles se portaram bem. Eu não mentia, porque, mesmo, nada havia visto, só dormira!

          Em Capinzal havia, na década de 1950,  a Rádio Sulina, com o Celso Farina como locutor. Também trabalhavam nela o Aderbal Gaspar  Meyer (Barzinho), a Alda Viecelli e outras pessoas. Sobre a Sulina e a Clube vou escrever, oportunamente.

          No final da década de 1960, à  noite, costumávamos, eu e meu irmão mais velho,  escutar o Paulo Giovani, na Globo, do Rio. Era um grande comunicador. Ao final, lá próximo da meia noite, apresentava uma paradinha com as mais solicitadas no dia. Eu ficava encantado com o que ele dizia.

         Pela manhã, ouvíamos "Primeira Hora", na Bandeirantes. Havia um locutor, Vicente Leporace, que era muito bom. Eron Domingues apresentava o  "Répórter Essso" (Alô, alô, Repórter Esso, aloooo!!!!), acho que numa cadeia de emissoras. Ao meio-dia, o noticiário Herval D´Oeste ou da Rural. Depois o rádio era desligado e só religávamos à noite, que era para não gastar muita luz... Na hora de  "A Voz do Brasil" ficava desligado, porque seria um noticiário que só falava o que interessava ao Governo e nós não queríamos ouvir o que eles tinham a nos dizer.

          Contou-me uma vez a saudosa Dona Elza Colombo, italiana que veio por duas vezes ao Brasil e viveu mais de 96 anos, que, durante a Segunda Guerra Mundial, os colonos do Ouro, quando iam para a cidade, chegavam à casa dela  para saber notícias sobre a Guerra, que o marido, André, acompanhava. Muitas vezes ficavam lá para esperar por um noticiário, para que pudessem ouvir as pretendidas notícias, pois muitos tinham parentes lá na Europa lutando.

          Quando veio a TV, diziam que o rádio ia pras cucuias. Não aconteceu isso. E você, certamente, deve ter muitas boas lembranças do rádio. Tem certeza de que nunca mandou uma cartinha e ofereceu uma música para alguém? Mesmo que tenha usado pseudônimo?
        
             Hoje, mesmo com as emissoras de TV, os computadores e todas as mídias possíveis, o rádio ainda é nosso companheiro inseparável. E há de todos os modelos, de todos os tamanhos e para todos os bolsos. Com menos de R$ 10,00 você pode ter um. Mas é difícil encontrar um caixão de abelhas...
         

Euclides Riquetti
07-02-2013




    

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O belo que a mão de Deus esculpiu

          Nosso Brasil tem uma pródiga e indescritível natureza. É uma grande aldeia natural a abrigar o homem, a inspirar o poeta. Em todas as suas regiões, mesmo que não houvesse tido a intervenção do homem, teríamos belezas a apresentar, pois há as  naturais para nos encantar e encantar nossos visitantes. Duzentos, quatrocentos milhões de anos a nos fazer bem, a moldar nosso relevo de forma a se tornar, por si só, algo que nos fascina.

          A orla brasileira, com  seus rochedos nas encostas,  ou mesmo com as milhares de praias paradisíacas, surpreendem ao visitante que vem pelo mar. A paisagem verdejante, entrecortada pelas águas dos caudalosos rios e dos mansos lagos a embasbacar  os que vêm pelo céu. Os vales por onde correm sinuosamente esses rios, emoldurados por paredões de rochas, configuram paisagens singulares.

          Em cada lugar, cada canto, cada ponto de nosso país, sempre há algo natural a ser admirado. Por quem nos visita e por nós mesmos. Nossa natureza é simplesmente espetacular.

          Nossa Região Sul,  que tem reconhecimento nacional pela sua força produtiva e de trabalho, não foge à regra brasileira. São três estados e muitas semelhanças. Estados celeiros.

          No Paraná, além de toda a sua serra litorânea, de suas belas praias, há dois recursos que chamam a atenção do mundo: O Parque Estadual de Vila Velha, em Ponta Grossa; e o Parque Nacional do Iguaçu, em Foz do Iguaçu.  São dois momumentos naturais de reconhecimento mundial.

          No Parque do Iguaçu, onde tivemos a oportunidade  de estar algumas vezes, destaco as Cataratas do Rio Iguaçu, aquela imensidão de águas que a natuureza habilmente para ali conduz, com quedas de até 80 metros de altura. Um mar de águas. E a localização numa área de terras que comporta sítios naturais e de preservação biológica. Milhares de animais e plantas, das mais variadas e raras espécies formam sua fantástica  bodiversidade.

           Em Vila Velha, nos Arenitos, em múltiplas formas;  nas três Furnas, com até 80 metros de profundidade,  ou na Lagoa Dourada, não há como não ficar embevecido com o que a natureza nos legou ali. É muito capricho! Parece que  Deus tirou  muitas de suas horas daqueles sete dias na Criação do Mundo para projetar aquilo qu está ali hoje. Lembro-me de que, durante muitos anos, quando se compravam fósforos da marca Irati, estampava a caixinha uma gravura de um  cálice de arenito, muito conhecido.  Animais raros podem ser localizados naquele parque.

          Aqui em Santa Catarina, um dos grandes monumentos naturais é a Serra do Rio do Rastro, que liga a Serra Catarinense ao Planalto Serrano, basicamente nos territórios dos Municípios de Lauro Müller e Bom Jesus da Serra.  A a intervenção humana fez pavimentar 12 Km da Rodovia que a corta com milhares de metros cúbicos de concreto, mas tudo projetado de forma a adequar-se á paisagem sem causar-lhe muitos danos. Motociclistas do Meio Oeste de Santa Catarina e gaúchos,  nos finais de semana, costumam dirigir-se para ali só para poder sentir aquelas sensação de liberdade que só eles sabem sentir e curtir. A estrada possui quiosques na sua extensão, onde servem comida e oferecem banheiros aos passantes.

          Outro lugar que muito me atraiu,  e volto para lá sempre que é possível,  é a Guarda do Embaú, ao Sul de Palhoça. Ali, um rio vem paralelo à praia e alcança o mar num ponto próximo a um morro, dando-nos a impressão que a grande faixa de areia branca, aquele paraíso dos surfistas, seja uma ilha. A vila, pequena e com suas ruas estreiras, lembra-nos aquelas aldeias indianas ou jamaicanas, onde, no verão, as cabeleiras rastafári tomam conta do visual local.

          O ponto mais famoso da Guarda do Embaú  é a Pousada do Zulu.  O Zulu, além de modelo e ator que já participou de produções Globais, é um "homem do mar". Nada e surfa. Em qualquer época do ano, mesmo no inverno, os surfistas estão presentes com suas pranchas e encantam os poucos visitantes. mas, no verão, a vila de ruas estreitas fica intransitável. Mas vale a pena ir até lá. Numa das vezes que lá estive, andando nas trilhas de um morro de um pontal, escutei uma voz:  "Estou procurando um homem do Ouro!" Olhei, era meu amigo Hermes Susin, colega de adolescência. Eu jurava que jamais iria encontrar um conhecido ali, mas encontrei. Divertimo-nos rindo de nosso encontro.


          No Rio Grande do Sul há umas cachoeiras muito bacanas, como por exemplo uma que serviu de pano de fundo na filmagem de O Quatrilho, na Serra Gaúcha. A Cachoeira do Caracol, em Canela, e os cânions de Cambará do Sul são expressivas belezas naturais.
         A Lagoa dos Patos, no RS e a de Laguna, em Santa Catarina, dão excelência à paisagem litorânea. A Ilha de Santa Catarina, com suas mais de 50 praias, é outro grande monumento natural. Os rios Guaíba, Das Antas,  Pelotas e Uruguai, no Rio Grande do Sul; Canoas, do Peixe, Chapecó, Peperi-guaçu e Itajaí, em Santa Catarina; Guaíra, Iguaçu e Paraná, no Paraná, desenham a paisagem hídrica exuberante de nossa Região Sul.

          Nossa natureza é abençoada. Temos 4 estações climáticas bem definidas no ano. Nossos invernos são frios, nossos verões quentes. No outono caem as folhas e recomeçam os ventos. Na primavera os campos florescem, o clima é ameno. Só resta ao homem preservar aquilo que ganhou, de graça, e que foi construído pela mão divina. Deus salve o Sul, Deus salve o Brasil.
         

Euclides Riquetti
05-02-2013

         

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Histórias com Bilboquês e Petecas

          Revirando minhas bagunças aqui em casa encontrei um bilboquê. Belo brinquedo que comprei há uns 4 anos em Porto Alegre, numa feirinha lá do Parque Farroupilha. O Parque Farroupilha é uma enorme área verde daquela cidade. Os portoalegrenses podem orgulhar-se de terem um parque assim, como os curitibanos têm o seu Bariguí, também acolhedor. São extensas áreas onde as pessoas buscam o lazer junto  à natureza, fazendo suas caminhadas diárias. Lugares aprazíveis.

          Os bilboquês e as petecas eram os brinquedos mais disponíveis que tínhamos em nossa adolescência. Também tínhamos bolicas, as de vidro. São as bolas de gude. Também  jogávamos muita bola. No Colégio nos oportunizavam  o "jogo de caçador" nas aulas de Educação Física, que eram raras. No primário, a própria professora regente nos dava a bola para jogar e arbitrava. No ginásio, o Frei Gilberto, Diretor, fazia-nos execitar e depois nos deixava jogar bola. Isso nos sábados pela manhã. Dava-nos exercícios militares que aprendera na Itália. Fora soldado na  Segunda Guerra Mundial. E era muito severo. Depois jogávamos futsal. Uma vez o Edovilho Andreis, o Vino, descascou o dedão do pé no piso áspero. É que poucos tinham tênis para jogar. E as congas eram muito frágeis. Se jogasse com uma, estragava-se.

          Como não tínhamos muitas opções, então precisávamos encontrar nossa maneira de brincar, criando nossos brinquedos ou comprando-os. Poucas opções havia.

          O bilboquê é um brinquedo de origem francesa e dizem que tem 500 anos. Existem muitos tipos deles, a maioria de madeira: são umas pequenas torres de cujo topo sai um cordão, normalmente de algodão, que se liga num suporte, também de madeira, parecido com um picolé. Há os redondos que exigem muita habilidade da gente, é ficícil pontuar com eles. Outros são parecidos com cones, ou então com sinos de igrejas. Eu não podia comprar um, então pegava uma latinha de fermento Royal ou Fleischmann, fazia um furo com um prego, passava um barbante, amarrava num pauzinho e tinha o meu.

          Na escola, na época do Padre Anchieta havia uns feras no jogo. Compravam os brinquedos na Casa Barraquinha, no centro da XV.  O Zé da Barraquinha nos vendia. Alguns compravam na Marcenaria São José o no D ´Agnoluzzo, que tinham torno para madeiras e os confeccionavam.

           Acho que os melhores bilboqueiros da época eram o Ézio Andrioni (o Bijujinha, já falecido); o Volmir Costenaro, o Gauchão, que está no Ceará; o Adelmir, irmaõ dele, que chamávamos de Gauchinho; o Antoninho Carleto, que era conhecido como Volpatinho e voltou recentemente para o Ouro; o Severino Mário Thomazoni, que foi para Araruna-PR, o Vilmar Matté, que está em Campos Novos. Esses davam-nos shows. Pontuavam, faziam piruetas e "passavam recibos"  como poucos. Mas havia muitos outros bons jogadores e jogadoras na época. Nunca me dei bem com o bilboquê. Acertava poucas piruetas.

          As petecas foram a "novidade esportiva" que os europeus encontraram no Brasil. Era um jogo dos índios, que só levaram para a Alemanha em 1936. Lá jogam muita peteca ainda, havendo diversas competições. Os índios as confeccionavam com madeiras envoltas em peles de animais ou palha e com penas de aves. Hoje não é muito diferente.

          Nossa geração jogou muita peteca. Meu último jogo foi numa competição escolar em que formei dupla com a colega professora Neusa Bonamigo, da Escola Sílvio Santos. Jogamos no Abobrão.  Ganhamos os mata-mata e ficamos campeões. Éramos os mais girafudos, tínhamos braços longos e isso ajudou muito. Acho qu fui um razoável jogador de peteca.

          Uma peteca qualquer pessoa podia ter. Era só pegar umas palhas e arrancar uma penas dos rabos dos galos e fazer. Os rabichos, os mais longos, davam uma bela aparência para a peteca. Ter um bilboquê, naquela época, era bem mais difícil do que ter um telefone celular com câmera, hoje. 

          Lembrar dessas pequenas coisas me dá prazer e gosto de dividir isso com as pessoas com que divido minhas amizades. Hoje, quando os brinquedos nas mãos das crianças são, em sua maioria  vindos da China, tenho saudades daqueles brinquedinhos simples com que nos divertíamos. Por isso gosto de meu bilboquê.  Foi o primeiro que consegui comprar e só fiz isso após aposentar-me como professor.  O único que eu tive. Tenho certeza de que muitos de meus leitores e leitoras também viveram isso. E sentem, como eu, muitas saudades. Mesmo que tenham celulares, tablets e Iphones....

Euclides Riquetti
04-02-2013

domingo, 3 de fevereiro de 2013

De sapateiros e de sapatos

          Sapateiros estiveram presentes na vida das pessoas desde que inventaram as sandálias, os primeiros calçados disponíveis ao homem. O objetivo, primordialmente, era o de proteger as solas dos pés, não o de adorno. Isso há mais de 10.000 anos. Depois vieram as botas, os botinões, as botinas, os coturnos,  os sapatos. A proteção aos pés, nas marchas para as guerras, era um fator de sobrevivência. Quem tinha os pés mais protegidos, conseguia encurtar as distâncias. Nos desertos, as sandálias,  nas montanhas nevadas, os mocassins. Em minha adolescência, todo o cara "bacana" tinha um sapato "Passo Doble", da Vulcabrás.

          Naquela época  eu gostava de frequentar alfaiatarias e sapatarias. Tinha parentes alfaiates e amigos sapateiros. Aliás, quando eu morava no Leãozinho, na época que tinha  anos, um filho de meu padrinho, o Aristides, era sapateiro. E eu ficava entretido em ver que as pessoas traziam seus sapatos gastos para por uma meia-sola. Em Capinzal, os mais tradicionais, de que me lembro, eram o Betinardi e os Zuanazzi. Adiante, na sapataria do Oneide Andrioni, em Capinzal, ele, os irmãos Severino e Antoninho, mais seu cunhado Valdir Souza, o Coquiarinha, tinham uma sapataria muito forte. Os fazendeiros e os colonos traziam suas botas velhas para fazer um remonte. Agora, o Tata Dambrós, ali ao lado da Praça Pio XII é meu "shoe assistant".

          O  remonte, numa bota, consistia em substituir todo "sapato" da mesma, aproveitando-se apenas o cano do par velho. E, com uma boa pintura, daquela tinta a pincel que só o sapateiro tinha, ficava novinha. Meu sonho era ter uma bota, nem que fosse de remonte. Acho que nunca tive um par delas, só botinas.

          O Riciere Caldart, conhecido como "Seu Nini", era uma fera na área, ali no Ouro. Assim como os Surdi, em Capinzal, os Andrioni, na Linha São Paulo, os Tonini, em Novo Porto Alegre, os Frank, na Linha Sete, o Valduga, na Barra do Leão, e outros. Todas as cidades e vilas tinham que ter uma boa sapataria, pelo menos, e em algumas comunidades rurais. Na verdade, nestas, além de lidar com calçados cuidavam dos arreiames dos cavalos, das selas e dos selins. E as mulheres levavam seus sapatos para trocar o salto, conforme a moda exigia. "Quero cortar meu salto e por um médio!"  "Quero que tire esse salto grosso e coloque um mais alto, que tenho que ir a um casamento no sábado!"
         
          Era tão bonito ver as mulheres com os cabelos bem arrumados, roupas elegantes, alçadas sobre belos sapatos de salto.

          E os sapatos foram ganhando importância tamanha na vida das pessoas que hoje existem de todos os tipos, de todos os materiais e para todos os  gostos. Pode-se dizer que, para a mulher, as bolsas, igualmente, situam-se não mais como acessórios, mas sim como componente básico da vida diária. E a combinação sapato-bolsa-cinto, quando bem articulada, lhes atribui um elevadíssimo grau de charme e elegância. É encantador  ver uma mulher que sabe vestir-se e harmonizar suas vestes com os seus acessórios.

          E nós, homens, também fomos aprendendo com elas. Aprendemos a combinar as cores das cintas com a dos sapatos. Às vezes, até com a carteira. Eu, particularmente, não dispenso isso. Mas o grande consumo em termos de calçados, hoje, é o tênis, que na minha infância  chamavam de "sneakers". As primeiras marcas mundiais foram, sucessivamente, Reebok, Puma/Adidas e Nike. Estão há quase 100 anos protegendo e dando conforto aos pés dos atletas.

          Em termos de sapatos femininos, várias atrizes, a exemplo de Sofia Loren, cultivaram belas coleções de sapatos. Mas, o que mais chamou a atenção do mundo, nesse quesito, foi o que aconteceu com a esposa do Presidente Ferdinando Marcos, hoje viúva,  ditador das Filipinas, que chegou a possuir 3.000 pares de luxuosos exemplares, enquanto que os compatriotas filipinos passavam fome.

          Ainda,  bem recentemente, o investidor financeiro norteamericano Daniel Shak teve uma baita querela na Justiça de seu país em razão de ter descoberto que sua belíssima ex-esposa, Beth Shak,  armazenava, num apartamento, uma coleção de luxuosos1.200 pares de sapatos, avaliada em mais de sete mil e quinhentos dólares, comprada com dinheiro dele. A gata, jogadora profissional de poker, possui até um blog sobre sapatos.

          E você, já teve muitos pares? Então, convido  a lembrar dos primeiros calçados que lhe deram quando criança. Vale contar também aqueles com número bem maior, para que não lhe escapassem e pudesse usar durante pelo menos dois anos. E das congas que usou para ir ao seu Colégio. E das bambas. E dos kichutes.

          E, hoje, quando você passar pela vitrine de uma  loja e embasbacar-se com os tênis de marca,  mocassins, sandálias, peep toes e scarpins, ou quando olhar para aquele Valentino, Louis Vitton, Chanel, Prada, Christian Loubatin, Charlotte Olympia, Dior, Arezzo e tantos outros, e você puder comprar pelo menos um, lembre-se daqueles senhores que um dia, no seu anonimato, ajudaram seus pés a fazer sucesso no bailinho ou na festinha de aniversário.

Euclides Riquetti
03-02-2013






sábado, 2 de fevereiro de 2013

Santa Evita e a Catedral do Tango

          Participamos, recentemente, de um espetáculo digno de uma Broadway em Buenos Aires. Estivemos na casa de espetáculos "Señor Tango", talvez o mais  sofisticado templo da música da América do Sul. Funciona num antigo casarão construído inicialmente por imigrantes italianos para abrigar um armazém de secos e molhados. Em 1996, seu novo proprietário, o cantor e dançador de tangos Fernando Soler o transformou na "Catedral do Tango". É, depois do jazigo da Evita Perón, o lugar mais visitado da capital Argentina. Abriga, confortavelmente, 1.500  pessoas em cada espetáculo.

          A Señhor Tango é um prédio de 100 anos, construído com tijolos maciços, paredes espessas, e uma estrutura composta de madeiras e metais. São três andares de galerias. Ao meio, um palco redondo, que gira, e oscila para cima e para baixo, onde o show de tangos é aberto com dois cavaleiros, um nativo e um imigrante uruguaio que se encontram, montados em dois belos cavalos brancos. Ficamos a dois metros do palco e bem ao lado de uma das rampas por onde circulavam os atores. É um show indescritível.

          Um cenário oferecido pela moderna tecnologia, numa tela enorme, à direita, frente da qual se posta a orquestra mesclada por músicos experientes e outros jovens, já nos promeiros lances emociona os visitantes. Executam clássicos e motivos nativistas da América do Sul, e  em especial os tangos.

          O show, inicialmente,  é aberto por duas senhoras muito semelhantes, gêmeas, que brindam os presentes com seu indizível talento. Depois, seis casais de jovens muito bonitos coreografam tangos e  valsas, com uma forte expressão facial, olhar contundente e leveza de corpos que flutuam no palco. Estamos lá, estamos na Señor Tango!

          Voltando atrás, as pessoas chegam de forma muito organizadas. Saímos em 50 ônibus diretamente do Magnifica e fomos adentrando ao local sem nenhum desvio de percurso, sem atropelos. As pessoas todas elegantemente vestidas e, mais importante, discretas e educadas. À direita, na entrada, um retrato  em que o cantor Fernando Soler posou quabdo da visita na casa da aprsentadora de TV brasileira Hebe Camargo, talvez a comunicadora que mais abriu espeço ao tango nos meios televisivos brasileiros. lembro que ela era uma exímia dançadora de tangos...

          É difícil que alguém que tenha visitado Buenos Aires para lazer ou turismo que não tenha estado nauela casa de shows. Só para citar, o ator Lando Buzanca, o presidente da Fifa Joseph Blatter, Bill e Hilary Clinton, o maior jogador de futebol de toda a história da Alemanha, Franz Beckenbauer, Alberto de Mônaco, Gabriela Sabatini, Ivanna trump, Victório Gassman e Lisa Minelli já estiveram lá. E, claro, muitos de nossos brasileiros, em especial gaúchos, catarinenses e paranaenses, pela proximidade geográfica.

          Mas, voltando ao espetáculo, o Fernando Soler é o maior representante  da segunda geração tanguista da Argentina e o "Embaixador do Tando no Mundo", já com shows realizados em todos os continenses e nas mais famosas casas de espetáculos. Sua voz estridente e marcante e a maneira calma com que se comunica com os presentes são sua própria marca, além de sua grande capacidade de interpretação, não só de tangos mas também de canções espanholas e mexicanas.

          Ao alto, uma galeria de fotos dos tangistas de primeira geração argentina, capitaneados pelo maestro Astor Piazzola.

          E, as canções interpretadas por Soler são todas acompanhadas pelos seis pares de bailarinos que, no chão do palco, ou impulsionados ao ar por trapézios, parecem voar rumo ao céu estrelado e voltam repentinamente à terra. É um paraíso  dentro de de uma casa de shows.

          Finalmente, o ápice das apresentações: enquanto os jovens dançarinos embasbacam a plateia, voltam as duas mulheres da abertura  e abrem a voz para a canção mais marcante daquele país: "No llores por mí, Argentina"!
E entra uma terceira voz, o poderoso Fernando Soler, e o trio nos contempla com  melhor interpretação possível da canção que traduz os sentimentos de todos para com  Maria Eva Duarte de Perón.  E termina o espetáculo. Nada mais há que se esperar, nada mais há que se possa querer, nem que possa superar a reverência de todos os atores e cantores que, com a mão direita colada ao  peito e os olhos voltados ao céu, a oura mão tocando a bandeira de azul, branca e amarela, cantam: "Não chores por mim, Argentina"! E aplaudimos em pé... e choramos!

Euclides Riquetti
02-02-2013

         

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

De Navegantes e deYemanjá

          Em 02 de fevereiro várias cidades do Brasil e de Portugal comemoram o Dia de Nossa Senhora dos Navegantes. Isso  acontece em Pelotas, Porto Alegre  e Rio Grande, no Rio Grande do Sul. Em Santa Catarina, destaque para Navegantes e Itajaí,  e para algumas praias. Em Salvador, na Bahia, é venerada como Yemanjá, a Rainha do Mar. No bairro do Rio Vermelho, 350 embarcações estarão participando de uma procissão e milhares de oferendas sendo jogadas ao mar. Se foram devolvidas, é porque não foram aceitas. Se o mar as levar, Yemanjá as aceitou.

          No Rio de Janeiro há grande reverência à Rainha do Mar em toda a orla marítima. Estas são as referências mais badaladas anualmente. Contudo, outras cidades pequenas, de menos visibilidade, também veneram a  Santa que está no coração de tantos e tantos. Para os católicos, Nossa Senhora dos Navegantes. Para os umbandistas, Yemanjá.

          Acompanho Nossa Senhora dos Navegantes desde minha infância. Em janeiro de cada ano, meu pai começava a preparar seu bote para ajudar na procissão que costumava acontecer no Rio do Peixe. Ele e os amigos gostavam de trazer a imagem vinda desde proximidades da Ilha, na antiga SIAP, pelas águas do Rio, até o valo que abastecia de água a usina hidrelétrica da família Zoréa, ali abaixo da barragem de pedras. E isso se repete até hoje. É uma magnífica procissão fluvial, ao anoitecer. Um belo show pirotécnico a recebe quando chega, em sua comitiva, próximo à ponte, onde é retirada das águas no portinho da família Costa, segindo pelas ruas  Giavarino Andrioni,  Guerino Riquetti e Felip Schmidt, até a Praça Pio XII, onde acontece a Santa Missa. Lembro que o Sr. Olivo Zanini era um dos que sempre estavam ali esperando para ajudar a levar o seu andor.

          Padroeira do Município de Ouro, é venerada pela população, que, no dia que lhe é consagrado, feriado, costuma aglomerar-se por sobre a Ponte Nova, na ligação com Capinzal, para presenciar a chegada da imagem que foi esculpida em cedro na década de 1980, pelo escultor Paulo Voss, que residia no Bairro que leva o nome da Santa. Nos dias anteriores, celebra-se um tríduo nos bairros da cidade, em preparação para o dia culminante.

          Diz-nos a História local que o balseiro Afonsinho da Silva, logo após a Guerra do Contestado, construiu um pequeno capitel à margem direita  do Rio do Peixe, colocando uma imagem para sua proteção, próximo ao passo. Contudo, na enchente de 1939 as águas levaram a imagem mas, tendo implorado pela sua ajuda,  foi atendido, salvando-se num momento muito adverso, quando achava que isso já era impossível. Então, adquiriu outra, em Caxias do Sul, que acabou na primeira capela construída, aos fundos da atual Prefeitura e, depois, na esquina da Rua Formosa com a Pinheiro Machado. Atualmente, a imagem esculpida é exposta num belo capitel, na Praça Pio XII.

          Há pelo menos três  fatos que me marcaram a presença da Santa em minha vida: A primeira vez, na metade da década de 1980, eu estava em casa ouvindo no rádio as preocupações  em relação à estiagem que vinha ocorrendo e pensando em Nossa Senhora dos Navegantes. Lembrei que o amigo Reinaldo Durigon, que aniversaria no dia 02 de fevereiro, e era muito devoto dela. De repente, escuto um bater de palmas, é o Durigon vindo a minha casa, coisa que nunca havia acontecido antes. Adivinhei o que seria: veio propor-me realizarmos uma procissão, mexer com a imagem da Santa que, dizem, ajuda a movimentar as águas. Organizamos uma procissão levando a imagem desde a matriz, em Capinzal, até o Seminário, em Ouro, e logo depois choveu.

          Na segunda vez, a estiagem assolando nossas plantações, todo mundo desesperado e pedindo uma procissão para que chovesse. Aguentamos mais uma semana, até o dia 02, quando montamos um palco para celebração em cima de um caminhão do Ivo Maestri, na ponta do canteiro central, próximo do comércio de sua família. Bem na hora do Evangelho veio uma chuva tão intensa que todos foram abrigar-se embaixo das marquises das lojas. A Eliza Scarton trouxe uns guarda-chuvas  para o Frei David continuar a celebração. Restaram somente o Padre e algumas abnegadas senhoras para ajudar. Poucos restaram para receber a comunnhão e para os ritos finais...

          Numa oportunidade mais recente,  estava participando da Festa de São Paulo Apóstolo, na área de Lazer, em Capinzal, quando o Sr. Pingo, o Pingo das Cocadas, veio falar comigo, queria autorização para vender seus doces na semana seguinte, dia da Procissão, na Praça Pio XII. Estava a explicar-lhe que a responsailidade do evento, naquele ano, era da Capela do Bairro Navegantes, liderados pelo Rovílio Primieri. Dizia-lhe que era para falar com ele, que eu concordava, e tentava mostrar-lhe onde se situava a casa do mesmo, apontando com o dedo, para que o Pingo o procurasse lá. Nesse instante, uma mão tocou meu ombro: era o Rovílio. Queria saber porque estávamos olhando para seu bairro! E já se entenderam ali mesmo. Coincidência, ou presença de Nossa Senhora?

          Essas são apenas as minhas histórias, mas há as de outros. A grande verdade é que as pessoas acreditam, firmemente, que Nossa Senhora dos Navegantes tem poder e domínio sobre as águas dos mares e dos rios. Tem poder de regular as chuvas. E ajuda as pessoas a se defenderam das incertezas dos mares da vida. Como Yemanjá ou como Nossa Senhora dos Navegantes, o fato é que ela tem um elevado número de adeptos no país, principalmente nas cidades litorâneas. Então, todos os anos, no Dia da Padroeira, as pessoas   se reúnem para render-lhes graças. E, se for em tempo de estiagem, para pedir por chuva...
       

Euclides Riquetti

         



        

         

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A (in)segurança nos locais de lazer -

          Chegou  a soar cômico o que se viu e ouviu  nos noticiários de final de noite e início deste novo dia, com relação ao acontecido na nova Arena do Grêmio, em Porto Alegre.
   
          Pelo menos oito pessoas ficaram feridas quando o jogador Elano marcou, pelo tricolor gaúcho, o primeiro gol no novo estádio, em Porto Alegre, na vitória deste sobre a LDU, pela fase inicial da Taça Libertadores da América. Ocorre que, no novo estádio, a pedido dos torcedores, contrariando as normas de segurança, deixaram uma das alas sem colocação de cadeiras numeradas, ficando uma arquibancada de livre movimentação, para que possam fazer "avalanches", ou seja, quando desejam comemorar um  gol, descem correndo para perto do alambrado.

          O belíssimo estádio, caprichosamente preparado para a Copa do mundo, nos envergonhou! Certamente que as imagens retransmitidas pela TV ao mundo terão repercussão junto à Fifa e aos torcedores estrangeiros que virão para assistir à Copa no Brasil em 2014.

          Em nome de um puxassaquismo exacerbado, da demagogia, da falta de seriedade, no afã de agradar torcedores imbecis, abriram essa exceção, que por sorte não nos trouxe vítimas fatais. Das dezenas de envolvidos no "rolo" (se eu disser que foi tumulto posso estar errado, uma vez que a atitude não foi voluntária, foi ingênua), oito foi o saldo de feridos.

          Agora, se olharmos aquela "cerquinha" que é o novo alambrado, temos que rir, leitor (a). Até escrevi no site do G1, ainda na madrugada: "Deveriam colocar pelo menos quatro carreiras de trilhos de trem como alambrado para conter a torcida" Mas, cerquinhas, de nada adianta, são apenas demarcações com efeito simbólico e não  prático.

          Tenho certeza de que o acontecido vai abrir nova discussão sobre a segurança dos estádios, que vai se somar à da  tragédia da boate Kiss e outros lamentáveis acontecimentos da nossa história. Melhor que tenha acontecido agora e que apenas uns esfolões e pequenas contusões tenham acometido os torcedores, e possamos ver melhor a questão da segurança dos locais onde há grande frequência de público.

          O Grêmio passou à fase de grupos da Libertadores através de vitória nos pênaltis.

Euclides Riquetti
31-01-2013

     

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

MSC Magnifica, uma Broadway Flutuante

          Em meados de janeiro tivemos nossa segunda experiência com cruzeiros. Saímos do Porto de Santos no dia 13 e retornamos ali no dia 20. Destinos: Punta Del Este, Buenos Aires e Montevidéo. Vivemos muitos momentos Broadway na viagem e nos deliciamos com isso. No MSC Magnifica fazem  grandes espetáculos musiais, há uma Broadway flutuante, um teatro, o Royal Theatre, com fina decoração em base de um verde envelhecido. A  de todos os ambientes é fantástica. Destaco o Tiger Bar e o Ametista Lounge como os mais acolhedores e sofisticados.

          Numa das esperas para o jantar ficamos no exuberante Topazio Bar, onde a cantora bahiana Camila Jatobá, vestindo um elegante longo,  branco,  interpretava:

 "Como Vai Você?
 Eu preciso saber da sua vida
 Peça a alguém pra me contar sobre o seu dia
Anoiteceu e eu preciso só saber
Como vai...você?"

         Era a música do Roberto Carlos que embalava nossos sonhos  dos tempos de juventude, lá do Clube 25 e no Apollo, em Porto União, bons tempos em que eu tínha longos e encaracolados cabelos e  muita energia jovem.  Vibrei com isso!

          Tirei fotos da Camila, conversei com ela, disse-lhe que tinha muito talento. E tem mesmo! É uma cantora fadada ao sucesso, sei que tem muitos fãs no Nordeste, onde é mais conhecida.  Ela mesma me deu o nome da outra cantora que a sucedeu, Marinês Fugueiredo, uma brasileira de Santos que canta um pop internacional com muita boa voz, postura, dicção e afinação. Disse-me a Camila que as demais cantoras consideram a Marinês a "professora" delas, que lhes dá muita força e até as orienta. Percebi que ela realmente é uma madrinha para as demais, tanto que, num dado momento de sua apresentação, convidou uma bela waiter, a Paola Suarez Heighes, peruana, para estar com ela no palco. As duas entoaram um maravilhoso dueto. Fiquei encantado com aquela singela improvisação!

          Nos dias seguintes conersamos algumas vezes com a Paola, ela tem formação acadêmica em seu país na área de serviços para cassinos. Muito cordial e competente em seu trabalho. Domina muito bem a língua portuguesa. Aliás, esse pessoal que trabalha nos navios tem sempre bom nível de formação escolar e falam no mínimo umas três línguas. Os mais antigos dominam diversos idiomas.

          Na terceira noite, no Royal Theatre, assistimos ao espetáculo "Sonhando Broadway", que fazia referência à ascensão de uma cantora negra ao estrelato, saída de uma daquelas igrejas em que os afroamericanos entoam aqueles belos hinos Evangélicos e muito soul-music para o estrelato. Eu observava a estrela morena que cantava  num elegante vestido longo, púrpura brilhante,  músicas de sucesso nos Estados Unidos,  e imaginava que seria  dublagem. Não acreditava que estivesse cantando, parecia mais uma dubladora fazendo movimentos magistrais com o corpo. Parecia impossível que pudesse cantar e movimentar-se com tanta elegância. Depois, entra um rapaz claro, engalanado,  e formam um espetacular dueto. Passo a perceber que os dois têm atrelados pequenos mas resolutivos microfones, e o público aplaude, freneticamente, cada apresentação de ambos.

          Adiante, o apresentador, Netinho,  anuncia que a cantora  irá interpretar uma canção homenageando sau pátria de origem e ela sai cantando um sucesso de Roberto Carlos. O público se levanta e, endoidecido, delirante, aplaude-a em pé. Merecedora consagração à intérprete, nossa talentosa brasileira que nos brindou sendo protagonista daquele espetáculo. Aquele efeito Brasil reinou em todos os nossos corações...

          Foram muitos espetáculos musicais nas sete noites da viagem. Coreografias que nos embasbacavam compunham os cenários. Tudo muito encantador. Até mesmo o piano solitário localizado no "Le Gocce", em que a elegante Gisela executava seus clássicos, parecia flutuar sobre as águas. Um cenário muito bem composto, com um piso de vidro bem transparente, mostrava-nos a água que mole e harmonicamente,  bailava sob o mesmo...  E bailavam, também, meus sonhos e meu coração!

Euclides Riquetti

         

         
        

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O Seminário

          Vivi minha infância muito presente no Seminário Nossa Senhora dos Navegantes, no então Distrito de Ouro, município de Capinzal.  Havia um Frei lá, João, depois o Frei Otávio, que eram os responsáveis pela educação inicial dos nossos futuros padres. Um  casarão que pertencera à Família Penso fora adquirido pelos Padres Capuchinhos e, com ampliações, comportava o Seminário. Os meninos estudavam no Mater Dolorum, até concluir o Primário. Depois iam para Riozinho, na região de Irati, no Paraná. Mais adiante, o Padre Adelino Frigo e o Victorino Prando estiveram na sua Direção.

      Lembro que o Martin Mikoski e o André Bocheco eram os braços direitos dos diretores nas décadas de 1960 e 1970.  Lideravam os meninos nas lides da roça, do estudo e das orações. Tomaram outros rumos, foram exercer outra vocação que não a do sacerdócio. Depois veio o Frei Orlando, que dirigia o jeep azul e a Ford, levando os seminaristas para trabalhar na granja deles. O esforçado Frei Orlando, compositor do Hino a Nossa Senhora dos Navegantes tornou-se sacerdote. Era uma alma bondosa. Continua sendo uma figura muito carismática. Com sua voz ressonante, enche os espaços das Igrejas onde canta.

          Eu tinha muitos colegas de aula que eram do Seminário. E também um primo. Tinham suas horas de estudos, as de orações e meditação, e ainda ajudavam na Granja dos Padres. Uma Senhora, Dona Aurora, era a mãezona de todos eles. Era uma matrona forte e respeitada, impunha respeito em talvez umas cinco dezenas de meninos afoitos.

          Aos domingos, iam para alguma comunidade, a pé, para jogar futebol. Lembro que o Luiz Frigo corria muito, tinha as pernas compridas e reclamava do juiz, normalmente um Frei.

          Quando a Festa de São Paulo Apóstolo  se avizinhava, eram colocados a pintar estatuetas de gesso do padroeiro, que eram trazidas de Curitiba. A batina marrom, um manto verde, o rosto marfim. Era mais ou menos isso. E havia alguns acabamentos que eram feitos pelo Frei João, para que o serviço ficasse bem feito. Ainda hoje há, em algumas casas no interior, exemplares desse São Paulo Apóstolo, que era benzido e vendido no Dia da Festa, 25 de janeiro, ou no domingo mais próximo. 

          No Colégio, os meninos eram bulidos, sistematicamente, por muitos dos colegas. Eles tinham umas características que os diferenciavam de nós, como por exemplo, na fala: Nós dizíamos "pra" e eles diziam "para". O Frei exigia que aprimorassem sua fala. Nós achávamos que aquilo era coisa de granfino. E diziam os esses nos plurais. E as declinações certas ao final dos verbos. Na sala eram comportados e isso nos deixava intrigados porque tinham mais prstígio do que nós que fazíamos nossas  inocentes  baguncinhas.  No futebol, eram melhores do que nós, porque em seu tempo livre, jogavam muita bola. Faziam petecas com palha de milho e penas de galinhas que eram uma maravilha. Tinham seu material escolar organizado, bem mais do que o meu, que não posso me citar como exemplo para ninguém, tamanho era meu desleixo. Por tudo isso os colegas buliam com eles.

          Eu ia diariamente ao seminário, era quase um deles. Algumas vezes me tentava a dizer que queria estudar para me tornar padre, mas  sabia que não tinha nenhuma aptidão ou vontade para isso. Acho que era por causa da companhia dos amigos. Aqueles que terminavam o primário iam para Irati e nós ficávamos muito tristes, pois só vinham para casa ao final do ano. Tinham que ficar lá em provação. Acho que isso levava  muitos deles a desistir de seu intento.

          Certa vez houve uma briga no Colégio e a minha turma de amigos ficou dividida, uns contra e outros a favor deles. Eu era a favor, pois aqueles meninos não incomodavam ninguém, mas havia uma cisma de alguns contra eles. Lembro que os contra eles desciam o morro rapidamente,  ao final da aula, antecipando-se aos seminaristas,  e amarravam as guanxumas  que havia ao lado dos carreiros para que, quando eles corressem, caíssem. E, depois, armavam uma algazarra para vê-los correr e caírem. Para nós, aquilo era divertido, não levam mais do que uns esfolões. Tinha um que era bravo, o Paulo Rosalem, que virou padre e soube que ele faleceu recentemente, em Capinzal.

           E muitos deles acabaram saindo  e tornando-se bons professores. Aliás, muitas das universidades do Oeste e Meio Oeste de Santa Catarina foram bem sucedidas porque ex-seminaristas tornaram-se professores delas, chegando ao Doutorado ou Pós-doc. E tornaram-se  diretores, reitores até. Mas também rechearam o mercado com profissionais liberais. Ou na área pública. A seriedade com que eram cobrados no estudo lhes deu uma base sólida de conhecimentos que lhes permitiu galgar escalas acima com relativa facilidade.

          Tenho boas lembranças daquelas tardes em que eu ia com um irmão pequeno participar das brincadeiras com os seminaristas.

          O Seminário Nossa Senhora dos Navegantes foi desativado, assim como os demais da região. Seus prédios são ocupados por escolas particulares, centros de administração pública e de múltiplo uso. Foi assim em Ouro, Luzerna, Ibicaré e Iomerê. No Paraná, em Ponta Grossa, um deles hoje abriga a Universidade Federal Tecnológica do Paraná.

          Nossa região, em razão de sua colonização italiana, era povoada de seminários. Os pais sonhavam em ter um filho Padre. Os filhos viam no Seminário uma maneira de sair de casa e estudar. E já valia para eles a regra de que "o futuro a Deus pertence". Talvez o Vaticano não tenha conseguido ter o número de propagadores do Evangelho que esperava, mas o certo é que muitos colégios e faculdades ganharam excelentes professores, ajudando a dar um ton de maior qualidade à nossa educação. Graças a Deus,  e não em nome de Deus...

Euclides Riquetti
28-01-2013

domingo, 27 de janeiro de 2013

A Tragédia de Santa Maria

           Não há como não comover-se com o que aconteceu, na madrugada deste domingo, em Santa Maria, RS.  Jovens bonitos, inteligentes, com o presente e o futuro muito promissores, no momento em que buscavam recreação, alguns comemorando resultados na Universidade,  foram vitimados por um evento adverso de grandes proporções. O incêndio na Boate Kiss vitimou mais de 230 pessoas.

          Imagino a dor de seus familiares, a angústia pela espera de notícias, o pânico instalado em Santa Maria. Nada reporá, no seio das famílias, as irreparáveis perdas. Nosso país está de luto.

          Resta-nos rezar para que os que perderam seus entes e amigos consigam superar a dor e possam encontrar motivos para recuperar o ânimo tão abalado.

         Esperar que nunca mais tenhamos notícias tão fortes na vida de ninguém.

         Que Deus receba esses jovens no seu Reino e lhes destine um belo lugar no Paraíso!

Euclides Riquetti
27-01-2013




       

sábado, 26 de janeiro de 2013

Visitando Evita

          Na quarta-feira, 16, estivemos em Buenos Aires. Desejava conhecer aquela cidade por razões históricas, culturais e artísticas. E eu tinha um foco principal: visitar o jazigo da eterna Mãe dos Descamisados, Maria Eva Duarte Perón, a Evita, nossa Santa Evita. E conhecer a arquitetura da Recoleta. Enfim, estar na terra da arte, do (meu) sonho e do tango!.

          Após umas andanças por Palermo, chegamos à Recoleta. Uma guia, Sílvia, passava-nos, habilmente e num espanhol claro, todas as informações sobre a cidade. Sabia muito sobre Buenos Aires e toda a História Argentina. Não parecia uma simples guia, mas sim uma professora que conhecia, com profundidade, todos os fatos daquele país desde a sua fundação. Passamos pela  "9 de Julio", um avenidão para fazer-nos inveja. A mais larga do mundo.

          Eu lembrava das ruelas de Florianópolis e ficava imaginando como aquelas pessoas tiveram a visão, lá, de projetar e construir uma avenida com mais de 140 metros de largura. Muitos monumentos para seus heróis e, sobretudo, para sua heroína, a mãe de todos os argentinos, Evita. No edifício do Ministério de Obras Públicas, em 2011,  a Presidente Cristina Krchner inaugurou dois retratos moldados em ferro pelo artista argentino Daniel Santoro, com 31 metros de altura e 20 de largura, sendo que o assentado ao lado Sul mostra a Primeira Dama sorrindo para seus protegidos. Para o lado Norte, há um retrato dela discursando ao microfone,  com uma expressão bem firme, severa. Dizem que sorri para os pobres que habitavam o lado sul do Bairro Montserrat e que fala austeramente para os burgueses do lado norte.

          Era muita informação para processar. E atrativos para fotografar.

          Finalmente chegamos ao Cemitério da Recoleta. Uma inscrição,   em Latim, na fachada da entrada, dizia:  "Requiescant in pace" (Descansem em paz).   É um portal imenso, com cerca de 10 metros de altura, branco, e a inscrição e outros símbolos estão em dourado.   O que você imaginar de belezas arquitetônicas influenciadas pelo mundo Eurpoeu, especialmente por Paris, ali estão nos mausoléus. Somente os ricos podiam comprar terrenos ali. E estão isentos de pagar impostos anuais pela ocupação do solo do cemitério com seus jazigos. São proprietários vitalícios. Alguns deles estão abandonados, mas, de uma forma geral, a conservação é boa. Os bens são passados aos seus sucessores, que têm o direito de enterrarem seus entes queridos neles.

          Eu já havia pesquisado sobre a localização do túmulo da Evita e do Presidente Raúl Alfonsin,  ainda antes de sair de casa. Tão logo adentramos o local, fui andando pela ruela central e, logo depois, virei à esquerda, dirigi-me para onde havia um grupo de pessoas. Certamente que ali seria onde estaria Evita e minhas suspeitas foram confirmadas pela guia. Foi muito emocionante para mim, estar ali, mesmo sabendo que seu corpo está quatro metros abaixo do nível do piso, protegido por concreto. Querem que seu corpo não seja, jamais, dali retirado, uma vez que somente duas décadas  após sua morte foi ali sepultado.

          Tirei fotos de todas as placas de bronze que estão afixadas na fachada o jazigo, edificado em granito negro. E dele em si. Passei a comentar com as pessoas sobre a vida dela e, mesmo meus 30 parceiros de viagem terem se afastado para cumprir o roteiro da visita, permaneci uns minutos ali, falando sobre a Evita para turistas de todos os lugares. Uma jovem brasileira, que estava com a mãe, mostrou-se muito interessada, disse-me que pouco ouvira falar, até então, daquela personalidade. Disse-me que iria, tão logo chegassem em casa, no Brasil, passar a estudar sobre aquele mito, que moreu aos 33 anos. Acho que arrumei mais uma fã brasileira para ela.

          Corri para localizar meus colegas de viagem e rapidamente os encontrei. Convenci a guia a mostrar-me qual era o jazigo do Presidente Alfonsín e somente eu, de minha turma, o visitei. Não poderia deixar de visitar um dos grandes lutadores pela redemocratização da Argentina. Fotografei rápido e voltei para o grupo. Lembrei-me o Juca Santos, que, num jantar na casa do Ademir Romani e da professora Vanilda, disse-me que, com a posse de Raúl  Alfonsín, eleito pelo voto direto, tudo ficaria resolvido na Argentina. E que, depois, com as eleições diretas que viriam também no Brasil, o resistente deputado Ulisses Guimarães iria ser nosso Presidente, e aqui também tudo se resolveria pela democracia...  (José Leonardo Santos era um jovem sonhador ...)

          Hoje, em todos os lugares de Buenos Aires, observa-se uma grande veneração por sua Santa. Os pobres, principalmente aqueles que habitam as favelas localizadas nas imediações e embaixo de um grande viaduto, porque ela é sua verdadeira heroína. Os burguses que habitam as mansões e prédios com características européias, renderam-se à  força da alma e ao carisma de Evita, e a respeitam. A mulher que conquistou o direito do voto para os argentinos, 60 anos após a sua morte, cada vez mais ocupa o coração deles e angarfia legiões de fãs na América do Sul e mesmo na Europa. Conhecendo sua história, não há como não se render aos seus encantos...

Euclides Riquetti
26-01-2013

         

 

           

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A histórica arte de assentar pedras

          A pedra foi, historicamente, um elemento muitíssimo importante na construção da História do mundo. É comum, quando pessoas passem por locais em que há construções feitas com pedras, de qualquer tipo, admirarem-se pela excelência do trabalho das mãos humanas. Em Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, conheci o Caminho das Pedras, em que as casas construídas há mais de 100 anos, basicamente em pedras trabalhadas, foram recuperadas recentemente. Dizem, lá, que as casas foram rebocadas no século XX, pois os propritários tinham vergonha em morar em casas assim. Morar em casa de pedra era sinônimo de atraso, de pobreza... Então, rebocavam as paredes para esconder as pedras, parecendo alvenaria de tijolos de barro.

          Agora, depois que viram que isso é motivo para orgulho e não para vergonha, retiraram  os rebocos e mostraram  a beleza daquela arquitetura. Numa delas, inclusive, filmaram O Quatrilho, há duas décadas, com a participação da Patrícia Pillar e da Glória Pires. Aliás, a respeito disso, ressalte-se que a verdadeira História de O Quatrilho, filme que foi indicado para o Oscar na década de 1990,  aconteceu envolvendo 4 famílias que têm descendentes em nossa região atualmente: Baretta, Dalri, Trentin e Tessari (ou Tessaro). A personagem Pierina, vivida por Glória Pires, representava a Maria Baretta real, a traída na verdadeira história e no enredo. Há descendentes dela morando em Ouro:  em Pinheiro Alto, Linha Caçador e Pinheiro Baixo. Há outros em Joaçaba.

         Sempre que o Egito é referido, lembramo-nos da arte das pedras, enormes, maravilhosamente assentadas pelo homem  na construção das pirâmides de Quéops Queéren e Miquerinos,  quando não se dispunha dos maquinários que possuímos hoje.

          Ontem pela manhã, ao dirigir-me ao centro de Joaçaba, ali defronte ao local onde a 50 anos se instava a garagem dos ônibus da atual Reunidas, no início da subida para o Aeroporto, vi que demoliram um velho casarão (sepultou-se mais uma história...), e restou um muro de pedras-de-obra aparentes, que certamente será substituído por uma contenção de concreto armado, para suportar, imagino, o estacionamento de um novo edifício. E comecei a perguntar-me o que farão com as pedras que serão retiradas dali...

          Na Praça Pio XII, em Ouro, havia um muro desses para a canalização do Rio Coxilha Seca, que passava por debaixo da área da mesma. Uma enchente, há cerca de uma década,  derrubou-o. Foi substituído por tubulação de concreto de 2 metros de diâmetro.

          Na área do antigo Ginásio Padre Anchieta, dando sustentação ao acesso ao Hospital Nossa Senhora das Dores, há um muro com pelo menos 5 metros de altura. Aos fundos do Hospital, outros, ainda maiores.

          Se andarmos nas cidades colonizadas pelos descendentes de italianos no Vale do Rio do Peixe, veremos milhares de quilometros de taipas remanescentes, com pedras irregulares habilmente empilhadas em firme amarração, a maioria com um século de existência. E estão ali, resistentes. Quem não se lembra de ter ido ao sítio do vovô ou do titio, um dia, e corrido em meio aos potreiros gramados e cercados por taipas,  atrás de terneiros?

          As taipas tiveram duplas  funções quando da colonização: Primeiro, fazer os cercados para que os animais não invadissem outras propriedades e fossem causar estragos nas plantações dos vizinhos, ou até como forma de proteção desse patrimônio; depois, porque a retirada das pedras das áreas que haviam sido desmatadas melhorava o terreno para o plantio, facilitando o trabalho do homem, principalmente no arado, evitando acidentes aos homem e aos animais.  E também para que o trabalho rendesse. Vale registrar que a maioria das nossas taipas foram construídas por lajeanos, que vinham do Planalto para trabalhar nas colônias, em empreitadas. Hoje, a profissão praticamente se extinguiu.

          O último taipeiro de que tenho notícia (podem haver outros, no entanto), é o capinzalense chamado de  Lajeaninho. Fez um muro para mim, na subida para minha casa. Não sabia ler nem escrever. Não usava metro para medir. Ele cortava uma rama de árvore, reta,  do comprimento de seu braço mais o equivalente a uma medida obtida entre o dedo polegar e o indicador  com uma abertura de 90 graus, o obtinha seu metro. Media o comprimento e a altura de sua empritada e multiplicava "de cabeça", dando-me a cálculo certo da quantidade de metros quadrados que executava.

          Outros desses autênticos pedreiros (hoje o termo pedreiro vem para pessoas que não utilizam mais pedras para trabalhar), construíram os muros de contenção dos porões, das frentes e dos fundos da maioria das casas edificadas até a década de 1960 nas cidades do Vale do Rio do Peixe. Conheci alguns deles, como Sr. Matiollo, o Bugre, seu cunhado Mingo Barbina, os Bonadiman, o Adami,  o Leonel, que fizeram muros até essa época. Mas, pelas obras remanecentes, é possível ver-se que nossa região contou com grandes artífices práticos em nossa História. E os calçamentos nas ruas das cidades também contaram com o habilidoso trabalho da mão humana.

          Mas, o que me leva a voltar meu pensamento ao passado, é considerar a magnitude da arte no assentamento das pedras quando na construção de nossa Estrada de Ferro (hoje desativada, abandonada, açoitada...,) desde Marcelino Ramos até Porto União. Dezenas de vezes passei em todo o trajeto utilizando o trem para ir e vir entre Capinzal e o Porto, e o mesmo fizeram meus amigos que foram para o Colégio Agrícola de Ponta Grossa, e os que acompanhavam bovinos e suínos desde nossa Estação do Trem até Sorocaba e São Paulo.

          Há maravilhosas obras de arte ao longo da ferrovia. Só para citar, menciono as  situadas proximamente ao perímetro urbano de Capinzal, nas imediações das residências dos Rossetti, Miquelotto e Costenaro; também aquela sobre o Rio Capinzal, no Centro da cidade; e aquela do Lajeado Residência, na confrontação de Linha Residência com Galdina, onde na margem direita do Rio do Peixe situa-se o Parque e Jardim Ouro, antiga SIAP, nas proximidades do estádio do Arabutã. E, no Rio Leão, não distante do Balneário Thermas Leonense, há uma maior. Em Herval D ´Oeste, é possível divisar-se uma ao sul da cidade.

          Em Pinheiro Preto, o túnel histórico da ferrovia, é emoldurado por um belo trabalho em pedras-de-obra. As pedras, na maioria das construções, tinham uma altura de 40 centímetros e o comprimento  variável. E isso possibilitava uma excelente amarração.  Era uma convenção que não sei por quem foi instituída, mas era nessa altura que saíam das pedreiras.

          A pedra é um símbolo da resistência humana. Parece que dominá-la, com arte, era a glória e a materialização dos sonhos das pessoas. Em Machu Pichu, está presente com toda a maestria da mão humana.  Soberanos, na História do Mundo, fizeram usá-la para edificar suas cidades, suas muralhas para proteção contra o inimigo e para guardar seus domínios e territórios, ou para sua tumba. A custa do suor e do sangue dos escravos. Foi assim nos primórdios das civilizações. Foi assim até recentemente.

Euclides Riquetti
24-01-2013



quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Uma oração para Evita

Santa Evita de todos os argentinos
Que já protegeste teus pobres descamisados
Cuida bem dos velhinhos e dos meninos
Que foram por todos abandonados
Não te esqueças de todos os oprimidos
Nem daqueles nos combates tombados.

Santa Eva Duarte de Perón
Olha pelas Madres de la Plaza de Mayo
Abre para todos teu coração
Ilumina as noites com teu candelaio
Escuta o lamento de minha oração
Mira os mais  fracos com teus olhos claros.

Santa Evita da Casa Rosada
Estende teus braços sobre  a Recoleta
Repousa teu corpo,  em granitos guardada
Inspira os poetas de todo o planeta:
Que seja  tua gente por ti abençoada
E deixe que no Plata vaguem as barquetas.

Mãe Evita de todos os filhos
Mito que se propaga nos lugares e nos anos
Bela e formosa menina de Junin
Deixa-nos uma história que tanto amamos
Eternizada em  "Não chores por mim..." (Argentina!)
Habitas o coração de todos los hermanos.

E também o meu...

Euclides Riquetti
(Composta em Buenos Aires
em 23-01-2013).