sábado, 6 de abril de 2013

Reversos

Reverto meus versos em reversos
Reverto emoções em mais emoções
Acalento ilusões e paixões
Paixões e ilusões
Em meus revertidos versos!

Meus versos traduzem saudosismo
Não há neles vitórias
E muito menos (in) glórias
Somente há palavras simplórias
Não há neles heróis, nem heroísmo!

Meus versos são livres, como livre é a chuva
Como é livre a água que corre
E vai quebrando as curvas.
Como é livre o sol que os montes cobre
Como é livre a noite que vem... quando o sol morre!

Euclides Riquetti
06-04-2013




sexta-feira, 5 de abril de 2013

Os Devaneios do Amílcar

         Reencontrei o Amílcar lá em Canasveiras. Estava sentado numa mureta, ali numa esquina central, defronte àquela em que os vendedores nos oferecem: "Cambio! - Câmbio!". Claro que eu, com aquele boné do Boca, que comprei em Buenos Aires, azul com detalhes em amarelo, sou alvo fácil: Pensam que sou "de fora", portenho. Quando digo meu firme "Obrigado!" é que percebem que, comigo, poucas chances terão de bons negócios.

          Quase não o reconheci, pois o tempo não foi generoso com ele também. Avantajou-se no abdômen e  agrisalhou-se nos cabelos, embora conservando a vasta cabeleira dos tempos de moço. O tênis deu lugar a uma franciscana, a calça e a camisa social deram lugar a uma bermuda jeans e uma polo Pierre Cardin. Os óculos de sol  meio fora de moda, padrão John Lennon (Se é que se pode dizer que os óculos do marido da Yoko algum dia caíram mesmo de moda). Como sempre, perfumadão. O Lancaster, porém,  deu lugar a um fino e suave olor de Paris. Foi um reencontro memorável. Aliás, para mim, todos os reencontros são memoráveis, têm o mesmo efeito, seja o do Mandela com sua África, ou do Zequinha com a Heleninha. A emoção tem nível semelhante, embora as situações e o status de importância, ao olhar externo, sejam diferentes. Não a mim...

         Demorei um pouco para certificar-me de que era o Amílcar. Mas, quando ele me abordou, com aquela voz aguda-preguiçosa, tive toda a certeza de que era ele. Um firme aperto de mão, um abraço e, em segundos, parecia até que nunca tínhamos deixado de nos vermos. Poucas vezes nas últimas três décadas. Quem sabe duas, três vezes. Mas foi uma grande alegria revê-lo.

          Ao cabo de uns vinte  minutos, já tínhamos passado e repassado nossas vidas, nossas venturas e desventuras. Ri muito de algumas que ele me contou: Estava ali, sentado, porque tomara umas latinhas de subzero e esquecera o número do telefone da esposa, que se distanciara para ver as "promoções" de redes, mantas e cangas que os nordestinos estavam fazendo pelo término da temporada. Já havia ligado para três números, educadamente atendidos por senhoras, que eram parecidos com o do fone da esposa, porém  não eram o da patroa. Desperdiçara já setenta e cinco centavos da infinity-pré. Então, liagara, disfarçadamente, para uma filha, lá de General Carneiro, para que ela ligasse para a mãe e lhe dissesse que ele estava a esperar naquela esquina e que não conseguira contato com ela. Esperto, ele!

          Também  contou-me que, quando em férias, desconecta-se do mundo, baixa o volume do celular, só não desliga porque de repente algum dos filhos liga, pode precisar. Mas não gosta daquela música já manjada do toque há muito configurado. Então, deixa o volume no perfil "apenas luzes".  E, desliga-se tanto do mundo que, bem na manhã do dia anterior, no café da manhã, apertava o tubinho do adoçante para colocar umas seis gotas no café, e as gotas do lowçúcar plus, com stevia, não saíam normalmente. Teve que pressionar mais o tubo e as gotas obtidas  eram de um creme abranquiçado. Só então percebeu que, em vez do adoçante, pegara o tubo do protetor solar. Contava e ria, ria muito. Fiquei com uma baita inveja do Amílcar, que acha graça até das desgraças.

          Tomamos um sorvete "cascão" e nos divertimos falando de nossas trapalhadas. Contei-lhe das incontáveis vezes que adocei café com sal e sobre  muitas de minhas gafes, não diferentes das dele. Contei até aquela de que lavei o cabelo com óleo diesel para melhorar a performance!

          Então, toca o seu telefone celular. É sua mulher que o está procurando. Ele a orienta sobre o lugar em que ele está e ela vem ao seu encontro, sacolas cheias. Bah, as promoções... E, "querido, tudo em três vezes no cartão, sem acréscimos".

          Vou dispensar o (a) leitor (a) dos detalhes daquilo que se seguiu. Agora, esperar que possamos nos reencontrar em breve. Não tem facebook. E esqueceu de me deixar o número do celular. O Amílcar nunca deixou de ser ele mesmo. Mesmo com todos os banhos de lama que já tomou...

Euclides Riquetti
05-04-2013



         

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Vêm as Ondas do Mar

Vêm as ondas verde-esmeralda banhar meus pés
Enquanto o vento atiça as brancas areias das dunas
Lá nas águas jazem as negras galés
Quando as vagas se requebram em alvas espumas.

Nas cinzentas manhãs do pós-verão
As verdades rebatem à minha porta
E uma dor leve açoita meu coração
Que já não tem certeza de que você se importa.

E em cada grãozinho de areia trazido
O despertar de um sentimento já adormecido
Reanimado pelas águas que balançam.

E em cada corpo que baila, bronzeado
Está você em seu presente e seu passado
Enquanto os anos avançam...

Euclides Riquetti
04-04-2013



quarta-feira, 3 de abril de 2013

De Pato Donald e de Madame Mim

          Acordei numa manhã com muito sol adentrando minha janela. Vinha do Mar de Canasvieiras. Na rua,  passando pessoas que conversavam. Uruguaios, argentinos, chilenos. mas, sobretudo, muitos uruguaios, milhares deles. Invadiram as praias de Santa Catarina por ocasião da Semana do Turismo no Uruguai. Os uruguaios são muito educados e simpáticos. Há muita gente bonita. Trazem junto os filhos pequenos e isso me faz voltar à infância, quando costumávamos levar nossas crianças para as férias nessa praia. E, como novidades, africanos do Senegal, alguns com  cabelos jamaicanos, vendendo bojouterias. Mas tem gente de todo o tipo.

          E então  lembrei-me de meu sonho da noite: Sonhei com a "Madame Mim", a simpática bruxa velhinha que vivia incomodada com os Irmãos Metralha e o Mancha Negra.  Isso mesmo, ela mesma, quase  que uma concorrente da "Maga Patalógica", a feiticeira personagem do Walt Disney. E, por conseguinte, comecei a lembrar-me do Pato Donaldo, dos sobrinhos dele,  Huguinho, Zezinho e Luisinho.

         Fazia muito tempo que não lembrava deles, mas foram figuras marcantes na minha, tua, nossa infância. Lembrei-me que meu pai pegava os nossos gibis emprestados para ler. Uma vez ia prestar concurso para Diretor de Grupo Escolar, a prova era em Florianópolis. Disse-me que queria todos os gibis que tivesse,  pois eram para ele estudar para o concurso. Imaginei: "O velho tá doido!" Estudar nos gibis, ora essa!

          O fato é que ele tinha muito conhecimento, lia muito, estudava muito. Aprendeu muito no Seminário São Camilo, em São Paulo, onde chegou ao curso de Filosofia. Passou no concurso, efetivando-se como Diretor no Grupo escolar André Rebouças, da Barra do Leão.

          Só mais adiante entendi da importância de as pessoas que têm uma base de conhecimento  apenas descansarem a cuca antes das provas dos concursos. Tem aquele ditado: "Marmelada na hora da morte, mata". Então a preparação precisa ser prévia.

         E, lembrando de minhas queridas personagens, do Mickey, do Pateta, dos Irmãos Metralha, do Gastão, primo sortudo do Pato Donald, fui para uma livraria, ali na Rua Madre Villac.

          Encontrei uns almanaques do Tio Patinhos, do Mickey, do Pato Donald. Comprei dois e fui para casa ler. Era uma história daquelas padrão: O Tio Patinhas mergulhando no seu rico dinheirinho, perdendo-o, todo ele, diante das armadilhas do rival Patacôncio e recuperando tudo três páginas adiante. E o Donald sempre sonhando, querendo ter a sorte do Gastão.

          Ri muito. E já decidi, vou começar a frequentar os sebos para comprar aqueles almanaques que têm muitas histórias que nos reconfortam e animam. Curtas e sempre com um final feliz, com o bem triunfando sobre o mal. Viva as personagens maravilhosas que o Disney nos deixou!

          Viva o Donald. Viva o Pato mais legal do mundo!

Euclides Riquetti
03-03-2013

terça-feira, 2 de abril de 2013

Verdes Folhas

Verdes folhas
Do ramo da rosa
Flutuam solitárias
Sobre as incertezas.

Pequenas bolhas
Na água inodora
Emergem crisálidas
Em sua leveza.

Nuvens densas
Confundem o dia
Mudam o céu
Escondem o sol.

Tardes imensas
Nos dão nostalgia
Da noite, do véu
Do céu arrebol.

Pequenas lembranças
As folhas nos trazem
Do tempo passado
Do longo caminho.

A vida balança
Na verde ramagem
No ramo quebrado
Na ponta do espinho.

E eu
Que sou eu
Que sou teu
Quero o amor que foi meu
E que nunca morreu.

Euclides Riquetti

Republicação do poema que consta no livro:
"Santa Catarina Meu Amor"-
Da ALB-SC em 2010.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Histórias com Torcedores do Vasco e do Arabutã.

          Sabe aquelas pessoas que têm características especiais e que escolhem ter suas paixões, simples paixões, mas as defendem como seu direito mais sagrado e absoluto? Pois elas existem e marcam nossa vida da maneira mais simples, mas são inesquecíveis.

          Quando eu era criança e ia ao campo municipal da antiga Rio Capinzal, torcia por todos os times da cidade. Desde que o jogo fosse contra os times de fora. Mas eu tinha meu time do coração: O Vasco da Gama. E, agora, eu lembro com saudades de cenas que presenciei por causa do fanatismo, da paixão que tira as pessoas de sua normalidade por causa do seu time de coração. E também lembro de torcedores folclóricos, sobre os quais falarei.

          Numa dada oportunidade, havia um jogo dos aspirantes do Vasco contra o Arabutã. O juiz tinha um time de preferência, mas estava atuando com imparcialidade. Chovia e o campo, pelo intenso uso, estava careca de gramado. O árbitro protegia-se com um portentoso guarda-chuva. Um torcedor do Arabutã, Etelvino, inconformado com uma decisão do juiz, pulou a cerca de madeiras, tomou o guarda-chuva do mesmo e deu-lhe na cabeça...

          Pois que havia a Dona Dileta, dona da Barraquinha do Café, onde servia um delicioso pastel  na Estação Ferroviária, vascaína fanática, só não invadiu o campo para entrar na briga deles  porque outros torcedores a detiveram. Os filhos Ico e Binde jogavam no Vasco e ela ficou fula da vida com o Etelvino. Mas com a turma do "deixa disso" os ânimos foram serenados.

          De outra feita, no clássico em que o Arabutã venceu o Vasco por 3 a 1, depois de 10 anos sem se enfrentarem, duas professoras minhas, das torcidas rivais, entraram em "rota de colisão" por causa de seu fanatismo. E, na semana seguinte, na escola, era só constrangimento...

         E não esqueço dos torcedores folclóricos do Arabutã, que iam a pé até a Baixada Rubra, ver os jogos do Arabutã:  o Bugre, que ia ao campo acompanhado de toda a numerosa prole, todos com as suas camisas e bandeira alvi-rubras.  Ficavam na arquibancada, torciam sem alvoroços, ficavam reunidos ali. E, quando a coisa apertava para a Casa, o Bugre fechava os olhos e fazia suas silenciosas orações. Devia ter suas inimagináveis convicções e a inabalável Fé. E davam resultado. Se não davam, dizia: "Deus assim  quis!" ou "Foi a vontade do Pai do Céu".

          Outro  torcedor muito  marcante foi o Mário Borges da Rosa, o "Ferro". Era tão fanático que saía cedo de casa, passava pelos bares, pelas casas, parava os carros, ia a pé. Camisa vermelha, do Arabutã. Levava muitas horas para fazer poucos quilometros. Mas, na hora do jogo, estava lá ele, de pé, ao lado do alambrado, cobrando dos jogadores e reclamando do juiz. Parecia que estava em outro mundo, olhava para a torcida na arquibancada, fazia gestos, erguia os bravos,  mas não perdia a noção do jogo. Depois, ia embora pela estrada, reptindo o método da ida, e resmungando, sabendo que ganhamos ou perdemos. A cidade toda o conhecia.

          O Mário "Ferro", há uns 7 anos, foi para Joinville visitar uma filha, adoeceu e foi pro céu. Pois quando estava construindo minha casa, em Joaçaba, não é que me passa na rua um senhor bem igualzinho ao Mário?! E com camisa vermelha, mesmo tipo de chapéu e calçado. Magro igual, alto igual, pele igual, movimentos de corpo e de mãos iguais.  O perfeito sósia do Mário. Entabulei conversa e descobri que Seu Antônio, o "Pato", era primo do Mário e do saudoso Tchule. Torcedor do Internaciobal e fã da dupla Teodoro e Sampaio, cantores. Que coisa! Viramos amigos, somos quase que vizinhos. E sempre, ao vê-lo na rua, lembro-me do "Ferro".

          Saudades, elemento sempre  presente na vida de todos nós...Saudades das pessoas simples que cruzaram nossa vida!

Euclides Riquetti
02-04-2013

  

sábado, 30 de março de 2013

Pendure Atrás do Fogão

          O fogão a lenha ainda é um equipamento de cozinha indispensável nas casas das pessoas que hoje estão na condição de semi-idosas ou já inclusas. Principalmente nas de quem não reside em apartamentos.

          Os fogões, aqueles esmaltados brancos com estampas de flores bem coloridas, bem tradicionais, das margas Geral, Marumby, Wallig ou Venax,   estiveram presentes na história de nossas famílias. Deles, tenho belas lembranças, principalmente da casa de minha madrinha Raquel, no Leãozinho, ou da Nona Baretta, na Linha Bonita, em minha casa e nas das tias, no antigo Rio Capinzal. As panelas grandes, de alumínio, fervendo o leite, ou no preparo do arroz quebradinho ou da macarronada. As de ferro,  para o cozimento do feijão e  as carnes. A polenteira, pesada, presente também. Algumas famílias tinham uma composição tão numerosa que precisavam de duas dessas polentas no almoço para saciar a fome após a lida da manhã. Os queijos, os salames, as copas, as bacias de saladas, principalmente os radicci.

          Um grande caixão para a lenha, com tampa, situado atrás do fogão, onde as crianças gostavam de ficar para menterem-se aquecidas nas frientas manhã de nossos invernos. Era disputado, mas os pais o reservavam sempre para os mais pequenos. E, de vez em quando, um susto, quando o vapor da água elevava a tampa da panela e, em gotas caía sobre a chapa muitas vezes avermelhadas pelo calor...

          Minha mãe conservou um até o final de sua vida. Nós, aqui em casa, também tivemos o nosso, mas já abolido desde que as crianças cresceram.  Porém, o que me faz retornar a ele não é a sua utilidade como o principal componente da cozinha, em tempos que as pessoas não tinham geladeiras e nem fogões a gás.

          Lembro dos arames esticados atrás dos fogões, fixados com pregos na parede angular, de madeira. E ali penduravam os uniformes para que secassem e as crianças pudessem ir para a escola devidamente paramentadas. Outras vezes, punham dois peçados de lenha no forninho e sobre eles um par de calçados, para que secasse e no outro dia pudessem ser usados...

          E há até lembranças que me fazem rir: uma vez minha irmã Iradi, professora na escola em Linha Pocinhos, colocou uma gravura de uma cozinha no quadro-negro. Estava ensinando  os alunos a fazerem uma descrição. E, uma aluninha, hoje uma respeitável senhora, escreveu: "Atrás da bunda da moça tem o fogão". Nada mal se os malandros não tivessem apelidado de "fogão" o traseiro dos homens.

         Também  histórias muito tristes foram protagonizadas diante desse histórico equipamento, com pessoas levando queimaduras que as marcaramou que lhes tiraram a vida...

         O fogão a lenha é um objeto que está caindo em desuso, gradativamente. Mas há muita gente herdando o costume de tê-lo e vão continuar utilizando-o. Alguns já substituíram a lenha por um dispositivo a gás que aquece a chapa. Mas, aquele brilho saindo da porta do fogão, ou aquele cheirinho da cinza da gavetinha sob a grade da combustão das lenhas, nunca será esquecido.

         Não importava para as crianças se suas roupas ficassem impregnadas de odores de fumaça ou de frituras.  Quem ligava para isso? O importante era não passar frio e no outro dia ir para a escola de uniforme e com calçados secos. Além disso, no inverso, tomar mate doce e comer aquele pinhão delicioso cozido sobre a chapa aquecida. E, todos sabemos, a comida que a mamãe ou a nona fizeram nos fogão a lenha era muito mais gostosa, não era?

          E o seu, era de que marca? De que cor? Tinha flores estampadas? Como era o caixão da lenha? Qual a marca: Geral? Marumby? Wallig? Venax?

          Você pode ter esquecido da marca, mas não esqueceu, certamente, das roupas penduradas atrás dele...

Euclides Riquetti
30-03-2013



         

sexta-feira, 29 de março de 2013

Jorge Dudu - O Padre do Violão

          Imagine que você olha em meio a uma multidão e vê um cidadão moreno, cabelos agrisalhando-se, olhar profundo vindo de um par de olhos negros, semblante tranquilo, voz calma e serena, mãos se movendo lentamente, passos firmes em seu caminhar elegante. Então volte sua imaginação para aqueles escravos sofridos que você viu nas novelas ou de que teve notícias através dos livros de Castro Alves. Lembre-se da humildades deles e depois navegue através do mundo da música: Busque Martinho da Vila, Agnaldo Timóteo, Evaldo Braga.

           E, através da Literatura, encare os romances de Machado de Assis, vá  ao simbolismo dos poemas de Cruz e Souza, com suas sinestesias e aliterações.  Relembre do Pai João,  intensamente replicado em quadros que adornam paredes das casas  em suas molduras brancas. Não deixe de lembrar da figura de Martin Luther King e de Ghandi.

          Então, criteriosamente, escolha as qualidades de todos esses que mencionei e de outros mais que você conhece ou admira e migre seu pensamento para a personagem que estou tentando descrever e que talvez você até conheça: Jorge Dudu da Silva, o Padre cantor, a Padre do Violão, 50 anos de idade, paranaense de Marechal Cândido Rondon que viveu em Capinzal desde dezembro de 2011.

          Pois esse sacerdote que aprendi a admirar desde o primeiro intante que eu o vi, e com quem falei no máximo vezes, deixou-nos na última quarta-feira à noite. Estava tratando-se em Curitiba e teve uma parada cárdio-respiratória quando ia submeter-se a um cateterismo. Viera há duas semanas de lá para buscar  algumas roupas e seu violão.

          O Frei Dudu, como era conhecido, tinha a alma dos poemas de Cruz e Souza. Morreu igualmente jovem. No ano e pouco que viveu na nossa cidade, mostrou-se um grande pacificador. Cantor que reunia a habilidade de postar a voz dos cantores que mencionei e o dedilhar de um violão como o mestre Paulinho Nogueira, foi   tamém  nosso Eric  Clapton. Foi o Dudu, grande animador de eventos religiosos e de festas com os amigos. No dia 27 de janeiro, celebrou sua última missa, na Festa de São Paulo Apóstolo, em Capinzal.

          Frei Dudu vai cantar no grande coro de anjos lá do céu. E continuar olhando por todos nós. Abraços, Dudu - Padre do Violão!

Euclides Riquetti
29-03-2013

quinta-feira, 28 de março de 2013

Perdas

Perdas são sempre sentidas
Ensejam  as saudades
Aguçam a sensibilidade
Ferem os corações e as almas doridas...

As perdas dilaceram os ânimos
E mutilam os pensamentos
Fazem a mente viajar pelo tempo
Perder-se em dias, meses e anos...

As perdas deixam marcas que não se apagam
Que ficam conosco eternamente
E que nos destroem  lentamente.

As perdas acontecem e as vidas passam
Fica a dor a matar quem já tanto sofreu
Fica o tempo a lembrar-nos de quem se perdeu...

Euclides Riquetti
28-03-2013











quarta-feira, 27 de março de 2013

As Apaes e a Inclusão.

         
          Quando fui candidato a um cargo eletivo, propus-me a visitar todas as casas de meu Município, não apenas para pedir votos, mas também para conhecer a realidade de cada família. Portava uma planilha e anotava o nome dos componentes familiares e fazia algumas observações, que iriam nortear meu trabalho se fosse eleito. O que me surpreendeu e até me assustou foi a diferença com que as pessoas com limitações físicas ou mentais eram tratadas em cada casa. Em algumas, muito amor e carinho. Em outras, a rejeição. E minha constatação veio porque, numa delas, especificamente, quando perguntei se havia mais alguém na casa, responderam-me: "Tem um lá em cima, mas aquele é "alejado", não vota".

           Pois pedi para ver a pessoa e fiquei chateado por ter presenciado tal situação, não a do jovem deficiente, mas com relação ao comportamento da família. Não faziam isso por mal. Foi cultura vigente, ao longo de nossa história, pessoas com algum tipo de limitação serem tratados com diferença. Saí de lá com uma firme decisão: Vou colocar um veículo com motorista para buscar,  em cada casa,  as crianças e jovens que quiserem frequentar escolas ou a Apae.  

         Na caminhada da campanha, registrei o nome, a idade e o endereço de cada um. Numa casa, em Linha Sul, encontrei uma Fisioterapeuta que visitava uma família. Perguntei-lhe o que podia ser feito pera essas pessoas, em especial para as crianças, e ela orientou-me. No ano seguinte, coloquei o transporte com uma Kombi e passamos a levá-los para a Escola Regular ou para a Apae de Capinzal. Também conveniamos com Fisioterapeuta e Psicóloga para dar-lhes apoio.  Lembro-me até hoje da alegria dessas crianças. Lá no Pinheiro Baixo, uma aluna  não tinha como andar a pé cerca de 2 Km para ir à escola. Começamos a transportá-la...

          As Associações de Pais e Amigos de Excepcionais são entidades que têm em seus quadros profissionais que fazem de si verdadeiros amigos daqueles que as frequentam. Apegam-se às pessoas como se fossem seus próprios familiares tão grande é o carinho e o amor que lhes dispensam. E têm a reciprocidade dos alunos, que também se apegam a eles. Conheci a maioria dos funcionários dedicados da Apae de Capinzal e agora vejo da mesma forma a ação dos da de Joaçaba. Ambas, têm o carinho e o respeito ao seu educando como a característica principal, o que é muito animador.

          Moro a menos de 100 metros da Apae de Joaçaba, localizada logo acima da Gruta de Nossa Senhora de Lurdes, no Bairro do mesmo nome. Vejo, diariamente, seus alunos chegando nos microônibus e vans, procedentes de alguns municípios circunvizinhos. As crianças descem com alegria e são recebidas com alegria. Muitas vezes saem para pequenos passeios e caminhadas, sempre com uma ou duas professoras. Não fosse o uniforme que usam, com a logo da Apae, nem se perceberia que são diferentes. Sua postura é das melhores, têm alto nível de disciplina e seguem as precisas  orientações das professoras. Sinto que a vizinhança reconhece o magnífico trabalho dos funcionários.

          Dia desses,  uma turminha  passou aqui defronte a minha casa. Todos felizes, falantes, alegremente acompanhados pela professora, muito jeitosa e demonstrando ter ótima formação. Conversamos e sinto o quanto eles ficam contentes em sair para seus passeios.

          O local onde se situa a unidade de Joaçaba é muito aprazível, plano, com pátio seguro para sua rcreação e atividades. Têm uma pista,  coberta, para a equinoterapia. Sinto que eles gostam muito de andar no dorso dos cavalos, apoiados pelo pessoal da Apae. Fico contente que assim seja e que, no Brasil, a criança diferente tem uma Legislação que a protege e lhe dá os merecidos direitos, inclusive o de frequentar escola regular e ter um professor exclusivo, pago pelo Estado. Pelo menos em Santa Catarina é assim.

          Em algumas cidades, porém, as Apaes são localizadas em lugares de difícil acesso, em terrenos com topografia muito irregular e com o espaço para atuação muito limitado. Acho que as Prefeituras deveriam começar a pensar em adquirir áreas bem favoráveis e amplas, apresentar projetos aos Governos Federal e Estadual e dar um carinho especial a essas pessoas, relocalizando-as.  Dizem que quando elas foram iniciadas, há meio século, as pessoas tinham muito preconceito com relação aos portadores de necessidads especiais e faziam as escolas em lugares retirados. É difícil de acreditar que foi assim. Acho que utilizavam os terrenos de baixo custo e não imaginavam que a entidade um dia se tornaria algo bem melhor que um simples depósito de gente com limitações.

          A Literatura que se refere à Inclusão deixa bem claro que há,  ainda , um certo nível de intolerância pela sociedade com relação àqueles que precisam de atenção especial.  E que os pais levam um grande susto e sentem-se culpados quando se deparam com a situação de terem um bebê com alguma deficiência. As áreas de saúde e educação, porém, já dispõem de excelentes profissionais que podem ajudar esses pais a superarem isso e aprenderem a como lidar com seus filhos nesses casos, para que não se sintam rejeitados e nem os pais culpados. A sociedade também deve fazer a sua parte, compreendendo e apoiando os pais e os alunos. Pais, Escolas, Sociedade e Poder Público precisam continuar a darem-se as mãos para as causas da Inclusão.

          Ah, não posso deixar de registrar: Já há alguns anos, recebi uma carta da jovem de Pinheiro Baixo, mencionada lá atrás,  que mudou-se, indo morar em município vizinho. E me agradecia por tê-la apoiado quando era criança.  Era já adulta, trabalhava, tinha independência. Só por isso já valeu-me a pena.

Euclides Riquetti
27-03-2013   

A Verdade Sem Curvas

Busca incessante a verdade
Procura encontrá-la  com todos os meios
Não te amedrontes, não tenhas receios
Nem te intimides pelas dificuldades.

Um sábio ancião sempre me dizia
Que a verdade não tem curvas
Que mesmo nas águas turvas
A verdade sempre viria.

E, mesmo que tu tenhas as tuas
E que os outros também as tenham
As verdades se redesenham
As verdades nuas e cruas.

Não duvides do que diria
Alguém que viveu por muitos anos
Que até pode cometer enganos
Mas tem em si a sabedoria.

E quando a velhice chegar
Com muitos anos na memória
Tu também terás tua história
E terás o que nos contar...

Euclides Riquetti
31-03-2013







terça-feira, 26 de março de 2013

A Perda do "Doutor Bruno"

          Conheci o Bruno da Silva quando eu era criança e ele adolescente. Trabalhava na Farmácia São Pedro, em Capinzal. Os pais e as irmãs moravam ali perto da casa da Professora Vanda Meyer. Depois o Bruno se mandou da cidade e demorou para reaparecer.

          Fui revê-lo quando eu já estava com a vida encaminhada e morando em Duas Pontes, hoje Zortéa. Eu trabalhava no financeiro da Empresa Zortéa Brancher S/A - Compensados e Esquadrias, e também fazia traduções de correspondências e emissão de proformas para exportação. Ele apareceu lá, esteve com o Dr. Lourenço Brancher Diretor Comercial, e com o Presidente da empresa, Hilário Zortéa. Estava com compradores europeus. Ele fazia a função de intérprete bilíngue. Trabalhara com Turismo e aprendera Inglês.

          Depois sumiu de novo. Só fui revê-lo quando o Sr. Werner, seu pai, faleceu, no início da década de 1980, lá na casa deles, agora no Parque e Jardim Ouro. O pai foi o empreendedor do melhor bairro da cidade de Ouro, o Parque Jardim, onde era uma vez a SIAP - Sociedade Industrial Agro Pecuária.  Estava morando em Belo Horizonte, então, e com a perda do pai veio morar em Ouro para cuidar da mãe, Dona Alma, uma senhora imponentemente germânica, com sotaque. Passou a trabalhar novamente numa farmácia.

          Conhecia tudo. Era nosso prático farmacêutico, enfermeiro, médico, psicólogo: um baita autididata.   As pessoas acreditavam muito nele e em suas recomendações. E era brincalhão, sempre tinha um belo causo para contar. Quando passava defronte a casa onde morou nas últimas duas décadas, ali ao lado da Ponte Pênsil, abordava-me: "A Vera Fischer está muito bem. Está arrumadona, cada vez melhor, mais bonita".

          Achava que nossa inflação era sempre de mentirinha, que os americanos iam governar o mundo, que iam descobrir remédios para todas as doenças e que os japoneses sabiam inventar de tudo.

         Na farmácia, uma vez disse para uma senhora: "Dona......, a Senhora não quer levar umas camisinhas? Tenho daquelas bem lisas, maias, suaves, saborosas, sabor morango, menta, de todos os tipos e para todos os gostos." E a Senhora, pessoa religiosa e respeitável: "Tá louco, Bruno? Você pensa que eu sou dessas coisas?" E ele: Leva três e paga só duas... Pois a Senhora, em vez de ficar brava, acabou rindo pela maneira carinhosa com que ele a tratava.

          Contava-me confidências, tinha uma namorada "muito secreta" numa cidade vizinha, não aquela do outro lado do rio. E olhava para ter a certeza de que ninguém estava escutando. Era um caso perigooooso!...

          Posso dizer que foi um de meus melhores amigos. Nós nos entendíamos, tínhamos opiniões muito parecidas sobre muitas coisas.

          Uma vez liguei-lhe porque um médico receitara algo para uma pessoa e ela quria saber se o medicamento estava correto. Diante da resposta afirmativa, a pessoa tomou o remédio. Tinha muita credibilidade, nosso Bruno.


          Pois o Bruno foi encontrado sem vida, no sofá de sua casa, na tarde desta terça-feira. Tinha 69 anos e muitas histórias.

          Ah, não posso esquecer: A Vera Fischer era a mãe dele. Era com esse carinhoso apelido que ele a chamava! Agora, vão encontrar-se lá no céu: A Dona Alma e a alma do "Doutor Bruno".


Euclides Riquetti
26-03-2013

Da Fajo à Unoesc - Acadêmicos Pioneiros

          O ano era 1972. Havíamos concluído o curso equivalente ao atual Ensino Médio no ano anterior, na Escola Técnica de Comércio Capinzal, como Técnico em Contabilidade. Representávamos uma geração de trabalhadores, a maioria do serviço pesado. Eu trabalhava como frentista no Posto Ipiranga, de Capinzal. Antes, fora lavador de carros noutro, serviço que me causou uma pneumonia e interamento hospitalar por uma semana. Tínhamos que tomar algum rumo, mas todos tínhamos uma determinação: Deveríamos continuar a estudar.

          Alguns colegas iriam para Florianópolis, outros para Curitiba. Muitos não queriam deixar a cidade, tinham conseguido empregos em escritórios contábeis ou  em empresas e estavam com a vida pessoal encaminhada, não desejavam mudar de cidade. Cogitei estudar Economia em Lages, mas gostava de ler, de escrever, não tinha nenhuma definição ainda sobre o que cursar. Costumava ler biografias de grandes vultos nacionais e percebia que, a maioria deles, tinha formação jurídica ou em letras. Encantava-me. Queria ser como eles, queria escrever, compor poesias, contos, crônicas até.

          Meu pai, Guerino, professor, disse-me que entre ser professor e economista eu deveria ser professor. Certamente que não ficaria rico, mas que ganharia o suficiente para me sustentar. Então, o professor Teófilo Proner ajudou-me na decisão. Disse-me que em União da Vitória havia a Fafi, onde eu poderia estudar Letras/Inglês. Foi na medida pra mim. Iria buscar meus fundamentos para escrever, iria conhecer novas pessoas e matar quem me matava: o Inglês. Eu era uma calamidade  em Inglês. Mas fui.

          Alguns dos colegas que permaneceram em nossa cidade também tiveram ótimas perspectivas:  Em Joaçaba, distante apenas 35 Km, iria começar a funcionar um curso Administração de Empresas. Estavam criando, há quase a 4 anos, a FAJO, Faculdade de Admistração de Joaçaba. Começou com 9 professores.  Foi a salvação da lavoura para aqueles jovens determinados e estudiosos. De nossa "Rio Capinzal" tivemos e exitoso colega Osvaldo Federle, o Machadinho, hoje um dos proprietários da Êxito Contadores. Começou na primeira turma, a de 1972. Mas, por falta de condução para locomover-se a Joaçaba, trancou matrícula e esperou o segundo semestre, quando também foram acadêmicos o Adauto Francisco Colombo e o Benoni Zóccolli (filho).

        Esses foram os três primeiros acadêmicos de nossa cidade a fequentarem a FAJO, que funcionou nos dois primiros anos junto ao Colégio Marista Frei Rogério. Depois foi transferida para o Colégio Celso Ramos, na sequência para o Pavilhão Frei Bruno e para o Colégio Cristo Rei, onde permaneceu até a inauguração da sede atual.

        O amigo Machadinho conta que o  primeiro transportador de alunos para Joaçaba foi o Ludovino Baretta, popular Chascove, meu primo e compadre, com uma de suas Kombis. Depois o Zeca Almeida e um funcionário do Banco do Brasil, o Rogério, conhecido como "Desligado", comprou uma Kombi e continuou a realizar o serviço. Os custos de transporte eram bancados pelos próprios acadêmicos. A Rodovia Estrada da Amizade não tinha nenhuma pavimentação. Muitas vezes tiveram que empurrar as Kombis nos dias de barro. Ou desviar por Linha Sete de Setembro, aumentando em muito o tempo da viagem.
          A Fajo foi transformada em FUOC, Fundação Universitária do Oeste Catarinense. Em 1992 já era transformada em  Universidade do Oeste Catarinense e,  em 1996,  reconhecida como Universidade. O grande comandante de toda a sua evolução foi, sem dúvida alguma, o Professor e Doutor Aristides Cimadon. Coordenou toda a sua implantação. E, desde 2004 é seu Reitor. Tem mandato até 2016. É difícil imaginar a Instituição sem a figura do Aristides.

          Na década de 1970 trabalhou como educador em Capinzal. Em 1978 ingressou nos quadros do Estado de Santa Catarina através de concurso, tendo obtido o primeiro lugar na área de sua formação. É um cidadão muito inteligente. Suas entrevistas, no rádio, seguem um extraordinário padrão didático. Ouvi-lo, é a mesma coisa que estar tendo uma aula.

          Ingressei no magistério em outra área, no mesmo concurso. Cruzamo-nos muitas vezes em encontros da educação e nos jogos de futebol. É muito elegante no falar e tem elevado carisma. Quando ele saiu de Capinzal, preocupamo-nos, pois perdíamos um grande professor. Mas agora vemos que não foi uma perda, foi um ganho. Nossa região ganhou muito com ele. Só o campus da Unoesc em Joaçaba tem 6.000 alunos. E ele é um dos principais protagonistas da sua  ascensão. Homens determinados implantaram a FAJO há 4 décadas. Sua semente foi a que proporcionou os melhores frutos para a nossa região. Permitiu que tivéssemos um grande impulso de dsenvolvimento. Graças a isso, hoje, nossa iniciativa privada é muito forte e segura, efetivamente, a economia da região, com excelência na qualidade dos serviços e produtos.

Euclides Riquetti
26-03-2013

segunda-feira, 25 de março de 2013

Noites outonais

Noites inspiradoras,  outonais
De céus enegrecidos (e manhãs incertas)
Janelas fechadas, janelas abertas
E a alma a não querer dormir jamais.

Noites das lembranças mais saudosas
De carinhos, sortilégios e de enganos
Noites de pensamentos ciganos
Que vagam pelas mentes perigosas...

Noites, apenas noites, noites  nossas
E de mais ninguém.
Nem do aqui, nem do ali,  nem dos do além
Apenas nossas, virtuosas, só nossas...

Noites que já foram nuas
Despidas de todos os mantos estelares
Noites minhas que foram todas tuas
De sabores, de beijos, de olhares...

Minhas, mas todas tuas... só tuas!

Euclides Riquetti
25-03-2013




domingo, 24 de março de 2013

As Garatujas da Indiazinha

          No dia 19 de abril a Júlia vai completar três anos. Lembro bem daquela tarde  em que nasceu, na Maternidade do São Miguel. Mamãe Caroline e o Papai Buja muito faceiros. Vovô Adão e Vovô Cride também. E as avós Liane e Miriam todas orgulhosas, cuidadosas...

         Nasceu no dia certo, nossa morena indiazinha. Como a Iracema, de Alencar, já com os cabelos "mais negros do que a asa da Graúna", até esboçou uns sorrisos, espásmicos, é claro. Mas sorriu!

        E vinham as visitas, muitos dos amigos dos pais. Revezavam-se no apartamento em que estavam a Carol e a filha.

        Agora, aluninha da Escolinha Girassol, é um encanto. Claro que todos os vovôs irão achar, sempre, que seus netos são um encanto. Devemos compreendê-los. A Juju é um encaaaanto!!

        Neste primeiro sábado outonal, veio cedo, antes das 7 horas para nossa casa, para a mãe ir ao trabalho.  Tomou meu lugar na cama. E o vovô foi cumprir suas funções de vovô: preparar um "zical". Zical, para ela, é um Nescau, nem que seja um achocolatado da Apti. Mas vale o carinho de ela sentir que fazemos o que ela gosta. E isso nos deixa muito felizes. O que mais querer de um sábado assim, em que os primeiros raios de sol estão aí, lutando para fulminar as nuvens e vir trazer-nos alegria?

         Ah, claro que você, vovô ou vovó, que é de minha geração, que curtiu os mesmos ambientes que eu curti na infância e na juventude, também tem, a todo o instante, o prazer de ouvir a vozinha de um neto, nem que seja ao telefone. E isso é muito compensador!

          O soninho emendado por uma hora e, ao acordar, o afetuoso abraço. Muito carinhoso e confortador. E diz: "Vovô, sabe porque meu cabelo tá perfumado? É porque a Mamãe Ine lavou com condicionador da Barbie.  E depois com shampu... da Barbie!

          E aproxima sua cabeça, seu cabelão negro, para que eu o cheire. Perfume suave, gostoso, discreto.

          Rolamos na cama, armamos uma grande bagunça. Olhamos para fora da janela,  embaçada. Apenas um tímido passarinho. Expliquei-lhe: "Os passarinhos estão escondidos embaixo das folhas das árvores, porque está frio!" E ela: "E quando vem o sol, vovô, os passarinhos voltam?"

         "Claro, fofa! Daí vamos olhar para todos eles e escutar eles cantando!"

        Depois, estiquei o braço para o janelão e desenhei um coração. Escrevi nele as palavras: Júlia, Vovô, Vovó... E li para ela. Ela, por sua vez, dedo indicador, desenhou uma grande "garatuja". E passou a fazer outras menores  no interior: "Esta é a Ju. Esta, a vovó. Este, o vovô. Esta, a Mamãe Ine. E esta,  a dinda Michele!"

         Fomos, então, para o café. Tomou e comeu daquele cafezão que nós, "italodescendentes", costumamos fazer. E mencionei que deveríamos dar a ela algo para melhorar sua imunidade. E a vovó: "Vamos fazer um suco de laranjinha do céu! Vamos usar as laranjinhas do céu que a mamãe da Tia Lu, a Dona Maria, mandou de Ibicaré!"  E a Júlia: "Vovó, como é que a Tia Lu fez pra subir e pegar as laranjinhas lá no céu?!"

          Agora, ajude-nos a explicar-lhe também isso...

Euclides Riquetti
23-03-2013